terça-feira, 28 de dezembro de 2010

2010: Odisseia neste espaço

Senhoras e senhores passageiros, mantenham por favor os cintos apertados, a nossa viagem por 2010 vai entrar em contagem decrescente, prevendo-se a aterragem no ano novo dentro de aproximadamente quatro dias.
O Comandante e toda a tripulação esperam que tenham desfrutado do voo, muito particularmente do documentário que puderam visionar da colecção “A Macroeconomia para Totós”. No mais recente capítulo desta famosa série da vida-real, os cidadãos-espectadores puderam aprofundar os seus conhecimentos sobre “A Dívida Soberana e o Financiamento das Nações”, assim complementando os conhecimentos que já tinham apreendido em anteriores episódios sobre “A inflação e a minha carteira”, “E tudo os juros levaram”, “A obsessão do défice” e “Crescimento, Internacionalização e Emprego: A Trilogia”.
Temos que registar a forma relaxada como reagiram aos períodos de maior turbulência, em particular no momento da aprovação dos diferentes PEC’s e do Orçamento de Estado para 2011. Neste caso, foi extremamente significativa a forma tranquila como decorreu o atravessamento da Greve Geral de Novembro último.
Sem jamais pôr em causa a segurança dos passageiros, tentámos que a nossa visita permitisse que vislumbrassem através da janela outras realidades similares à nossa, na Grécia, Irlanda e Espanha, mas também outros mundos em que o dinheiro é gasto com mais racionalidade e em que os Estados não se socorrem sistematicamente do aumento dos impostos para financiar as suas opções erradas de gestão, sendo agora dispensáveis as políticas de austeridade.
Nalguns casos, vimos mesmo fenómenos de crescimento significativo, em diferentes pontos do mundo, desde a China e Brasil até grande parte do Continente Africano, seja nos países lusófonos em que muitos quiseram fazer escala, seja na distante África do Sul em que o planeta se concentrou durante o último mês de Junho.
Aqui, porém, tal como aconteceu com a Selecção Nacional de Futebol e as suas principais estrelas, optámos por passar algo ao lado, vendo já longe o histórico momento de glória dos Nuestros Hermanos.
A nossa Companhia enaltece a fidelidade de todos os clientes, esperando que a mesma se possa manter em função da qualidade dos nossos serviços e não apenas porque não é possível experimentarem o Trem de Alta Velocidade ou porque não querem suportar o custo das SCUTs agora em vigor em diferentes vias do País.
Desde já apresentámos também as nossas desculpas por algum défice nos serviços e nas infra-estruturas ao dispor dos passageiros da zona Norte da nave, mas a verdade é que às dificuldades generalizadas de acesso ao crédito – que condicionou e muito os investimentos que a Companhia e a generalidade das PMEs pretendia realizar – se juntou a lentidão no processamento das candidaturas e até o desvio de verbas destinadas a essa zona em matéria de Fundos Comunitários.
Aproveitámos assim para informar que está já em curso um processo de reorganização administrativa do nosso espaço e que as novas viagens futuras já poderão possivelmente ser feitas no modelo regionalizado.
Foi, também, para garantir a viabilidade e a qualidade de voos futuros que optámos por não recorrer a Parcerias Público-Privadas, assim assegurando que outros possam desfrutar sem uma pesada carga das viagens para que efectuaram a sua reserva na História.
Se foi com natural emoção que acompanhámos o resgate dos mineiros no Chile ou a resposta global ao Terramoto do Haity, foi seguramente consternados que vimos os muitos milhares de litros de petróleo cobrir de negro as águas do Golfo do México e, quem sabe, o futuro da BP.
A par com a habitual lentidão e (in)justiça da Justiça nacional, retemos também desta viagem as evidências do descalabro do processo BPN – Banco Português de Negócios e as falhas da regulação no affair BPP – Banco Privado Português, devidamente recompensadas com a promoção do ex-Governador do Banco de Portugal para uma qualquer prateleira dourada da Europa.
Em pleno voo, assistimos ao eclipse de estrelas como Ernâni Lopes ou José Saramago, para desgosto de todos os seus adeptos e, como é típico, daqueles que chamaram a este último “Todos os nomes”, talvez com excepção do passageiro Cavaco Silva cujo voo de ligação para um segundo mandato no Palácio de Belém seguirá o seu curso após a nossa aterragem.
Imbuídos de um constante espírito de Natal, soubemos ser devidamente solidários com o nosso vizinho do lado, na certeza de que esse esforço colectivo irá depender cada vez menos das instâncias públicas.
Para concluir, recordámos que poderão aceder aos principais momentos desta viagem nas diferentes redes sociais, bastando para tal clicar em “Gostar” no link www.facebook.com/2010.
A todos, um FELIZ ANO NOVO!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Então é Natal...

No colégio das minhas filhas mais velhas, a festa de Natal concluiu-se ao som da conhecida música de Simone, cuja letra fora previamente distribuída para que os pais pudessem participar em pleno nesta actividade, fazendo deste evento mais um momento mágico e de comunhão para toda a família.
-Então é Natal, e o que você fez? O ano termina, e nasce outra vez.”, atira-nos Simone logo nos primeiros versos, como que a lembrar que este é um tempo de retrospectiva mas também de projecção do futuro.
Se, como se diz, “o Natal é sempre que um Homem quiser”, creio ser igualmente verdade que o Natal é aquilo que cada um quiser.
Há quem releve o aspecto religioso e faça deste período uma oportunidade para renovação da sua fé e da gratidão pelo amor de um Deus feito homem, por ora menino e humildemente aconchegado nos braços de sua mãe e num berço de palha de uma qualquer gruta de Belém.
Há quem exulte com a alegria que vai retirar das prendas que o Pai Natal ou o Menino Jesus deixará no sapatinho na noite de Natal, seja como receptor(a) de tais agrados ou como fonte da satisfação que vai proporcionar a outrem.
Há quem salive com a mera perspectiva das delícias festivas, quer seja o tradicional bacalhau cozido com batatas e couves, o polvo, o peru, o cabrito ou qualquer outra iguaria que a tradição acomode e a carteira comporte, quer seja uma das múltiplas sobremesas ultra-calóricas que dão cumprimento cabal à também popular expressão do “perdoa-se o mal que fazem pelo bem que sabem” e que racionamento algum de açúcar poderá apartar das faustas mesas desta quadra.
Há quem se anime com a decoração das lojas, com os presépios, com os enfeites dos pinheiros, ou com a iluminação de ruas que, salvo verdadeiras obscenidades despesistas, política de contenção alguma deve suprimir.
Há quem não consiga parar de trautear os principais cânticos natalícios ou quem dê por si a acompanhar o coro das familiares músicas que ecoam nas ruas e nas rádios a toda a hora.
Há quem aguarde com expectativa pelas galas de Natal dos vários canais de televisão e quem se delicie com a programação de férias que estes sempre preparam para os públicos mais jovens e não só.
Há quem se alegre com o rebuliço popular que agita as ruas do centro das cidades ou que justifica as longas esperas nos acessos aos parques de estacionamento das grandes superfícies comerciais.
Há quem se enterneça com o especial entusiasmo infantil desabafando até que “o Natal é para as crianças” e quem aguarde ansiosamente pelos carinhos de familiares e amigos cujo reencontro só esta quadra consegue potenciar.
Há quem cuide de assegurar que o Natal chega mesmo a todos, independentemente do seu estado e condição, e quem entenda que, pelo menos nesta altura do ano, deve reforçar a sua prática solidária, prestando o apoio que tiver ao alcance da sua vontade àqueles que mais precisam.
Há quem rejeite os relatos quase mitológicos dos principais quadros bíblicos e quem repudie a costela consumista exacerbada da generalidade das pessoas ou o materialismo ostensivo que se vive neste período.
Há quem se atemorize com as calorias excessivas que vai consumir e os quilos a mais que as mesmas vão trazer também de presente e quem se aborreça com a omnipresença das referências natalícias em todos os espaços e momentos.
Há quem se revolte com a sobrelotação das lojas e pastelarias e quem se lamente com a sobrecarga de trabalhos que o encontro de família sempre vai proporcionar ou com o enfado dos mais ou menos formais jantares de Natal com os colegas de trabalho.
Há quem lamente a inactividade generalizada que grassa neste período ou quem inveje as férias com que outros esgotam as passagens aéreas para os principais destinos turísticos mundiais.
Há quem critique a misericordiazinha conjuntural e o oportunismo daqueles que acusam de tentar tirar proveitos públicos da desgraça alheia.
Há, porventura, em cada um de nós, um instante de cada um destes Natais, e o desejo secreto de que um novo Natal se aproxime, uma vez ultrapassado de forma invariavelmente célere o reencontro com esta quadra festiva.
Por isso, como na música da Simone, “Então bom Natal, e um Ano Novo também, que seja feliz quem, souber o que é o bem.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Empreender no feminino


Os objectivos políticos e Constitucionais de contribuir para uma superior igualdade de género nas diversas vertentes da nossa sociedade têm já várias décadas e vêm dando a devida sequência aos diversos compromissos que foram assumidos no quadro das principais organizações internacionais, daqui resultando múltiplas iniciativas concretas.
De entre estas, os programas de apoio ao Empreendedorismo feminino têm merecido natural destaque, tanto mais que os mesmos dão resposta a três dimensões deste problema: o apoio à criação do auto-emprego, o reforço da capacidade empresarial feminina e o aumento da qualidade da participação das mulheres na vida activa.
Em verdade, porém, se muito há ainda por fazer para a plena concretização destes objectivos, as transformações verificadas ao longo das últimas décadas em diferentes domínios da nossa vida colectiva acarretaram naturais consequências para esta vertente concreta.
Naquilo que tem mantido alguma estabilidade, pode dizer-se que as mulheres ainda encontram maiores dificuldades de colocação no mercado de trabalho, que são, em média, pior remuneradas que os homens no desempenho das mesmas funções, e que assumem a necessidade de conciliar a sua actividade profissional com as normais exigências da sua condição de esposas e mães.
Também no plano empresarial, as mulheres constituem, em média, apenas 30% dos empreendedores da União Europeia, sendo que é usual encontrarem maiores dificuldades do que os homens em iniciar os seus projectos de negócios e em aceder a formação e a linhas de financiamento.
Os últimos anos aportaram, porém, diversas condicionantes para esta realidade. As transformações demográficas que expressam uma redução drástica das taxas de natalidade e o aumento da participação feminina nos diferentes graus de ensino, aumentam quer a disponibilidade, quer as qualificações femininas, potenciando os seus atributos “naturais” – e não, não me refiro a aspectos físicos – que mais contribuem para o sucesso do seu desempenho profissional ou dos seus projectos empresariais.
Segundo o estudo “Igualdade de Género em Portugal em 2009”, da Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género e da Presidência do Conselho de Ministros, citando dados do INE para 2008, as mulheres assumiam a maioria na percentagem da população com mais de 15 anos que completou os diferentes graus de ensino, destacando-se os 60% da população que concluiu o ensino superior.
Nesse mesmo estudo, mas agora com dados do Ministério da Ciência e Tecnologia e Ensino Superior relativos ao período 1997/1998 a 2005/2006, evidencia-se que a percentagem de mulheres no total de diplomados se cifra, em média, nos 65,4%, atingindo percentagens de 90% na Área da Educação, dos 79,5% na Área da Saúde e Protecção Social e os 66,9% nas áreas das Ciências Sociais, Comércio e Direito.
Em linha com estes dados, segundo o estudo «As mulheres entre o trabalho e família nos países da União Europeia», do Centro de Estudos de Emprego, 63% das portuguesas estão no mercado de trabalho e 92,2% das licenciadas encontram emprego imediato, o que traduzirá os números mais elevados da Europa.
No âmbito do Programa Operacional Potencial Humano em vigor, a Tipologia de Intervenção 7.6 “Apoio ao empreendedorismo, associativismo e criação de redes empresariais de actividades económicas geridas por mulheres”, aprovou até ao final de 2009 mais de meia centena de projectos, representando um investimento superior aos 10 milhões de euros.
Tendo acompanhado como consultor várias empreendedoras abrangidas por este projecto, que agora estão a concluir os seus Planos de Negócios e a formalizar o início da actividade das suas empresas, não posso deixar de registar também uma alteração drástica do perfil de tais empreendedoras face a exemplos passados.
De facto, independentemente de partirem ou não para este projecto na condição de desempregadas, as “novas empreendedoras” não encaram a sua iniciativa empresarial como uma solução de recurso pela sua não colocação profissional e muito menos procuram uma actividade “menos exigente” que facilite a conciliação com a sua vida familiar.
Antes, deparei-me com empresárias com boas ideias de negócio, com visão estratégica, determinação e uma enorme paixão pelos seus projectos, aos quais não regateiam na dedicação, especialmente traduzida na tentativa contínua de aprofundamento do seu conhecimento sobre o sector e a respectiva envolvente competitiva.
A estes atributos, pode-se juntar a perseverança, a auto-confiança e a capacidade de reconhecerem as suas próprias limitações, sem que se sintam diminuídas no seu domínio dos projectos ou temerosas dos riscos que vão enfrentar.
Por todos estes motivos, acho que os homens têm que se congratular pela contínua afirmação deste valores na defesa de uma verdadeira Igualdade do Género. E fica a faltar apenas saber quando será lançado o primeiro programa de apoio ao Empreendedorismo Masculino…

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Austeridade?


A pergunta fazia a manchete da capa da última edição do Semanário “Sol” que, abaixo, avançava com quatro possíveis respostas, evocando os honorários pagos pela Portugal Telecom ao seu administrador Rui Pedro Soares, os subsídios compensatórios do Governo Regional dos Açores aos funcionários públicos do Arquipélago, a intenção da RAVE avançar com a obra do TGV e o custo dos acessos ao novo Hospital de Braga.
No primeiro caso, o tiro parece-nos deslocado. As milionárias retribuições pagas por uma empresa privada a um seu Administrador, independentemente de este ser um destacado militante socialista sem carreira de registo, a ascensão meteórica deste na empresa e as regalias de que usufrui após o seu “emprateleiramento” no pós-processo Face Oculta não são questões que contendam com a austeridade pública, especialmente se esquecermos o seu eventual envolvimento na concretização do pequeno-almoço [entre Figo e José Sócrates] mais caro dos tempos modernos.
Antes, poderão ser mesmo a base para um qualquer argumento de um filme cor-de-rosa sobre a forma como o “sonho americano” também se transforma em realidade em Portugal.
Bem pelo contrário, as três restantes situações invocadas são bastante mais delicadas do ponto de vista da adopção de políticas de austeridade no sector público.
Isto porque, sabendo-se da dureza das medidas que foram e serão aplicadas neste contexto, a sua aceitação requer que sejam cumpridos alguns requisitos, relativos à sua coerência, ao seu equilíbrio e justiça e à sua credibilidade.
Tal como já havia acontecido em relação à discussão sobre se a incidência dos cortes dos vencimentos dos funcionários públicos se alargava ao sector empresarial do Estado, a possibilidade de os funcionários públicos dos Açores serem compensados pelo corte de vencimentos decidido pelo Governo rompe com as mais elementares regras do bom senso.
Entre os dois casos, há, porém, uma ligeira diferença: enquanto que na primeira situação se admitia que certas franjas do sector empresarial do Estado pudessem não estar directamente abrangidas pelo corte médio de 5% decretado pelo Governo, os funcionários públicos Açorianos poderão passar incólumes a esta medida graças à atribuição de um subsídio extraordinário por parte do Governo Regional.
O Presidente do Governo Regional dos Açores procurou justificar a medida com motivações de natureza económica e social – a intenção de manter o poder de compra a cerca de 3.700 funcionários que pertencem à classe média baixa local -, e até argumentou que a mesma não originava um aumento de encargos mas traduzia apenas uma alteração das prioridades da despesa pública Regional.
Todavia, a mesma contribui para a erosão do tal sentimento de equidade e justiça entre os funcionários da administração pública e levanta legítimas dúvidas sobre a razoabilidade das verbas transferidas para o Governo Regional dos Açores (claramente favorecido aquando da última Lei das Finanças Regionais do Governo Sócrates).
Em última análise, a iniciativa de Carlos César poderá apenas ser lida como mais um dos actos de revolta que vão grassando no seio do Partido Socialista contra a governação de José Sócrates. Ainda assim, pela leitura “nacional” desta iniciativa, exige-se que a mesma não seja apenas escrutinada pela via legal.
Relativamente às duas notícias que envolvem obras públicas, de valores claramente distintos mas com sintomas idênticos de despesismo, as mesmas ameaçam sobretudo a componente da coerência e credibilidade da política de austeridade.
Por um lado, refere-se que a RAVE (Empresa responsável pela Rede de Alta Velocidade) está a dar sequência ao processo que envolve o Concurso Público para a construção do troço Poceirão-Caia, que faz parte da linha Lisboa-Madrid do TGV, mesmo sabendo-se que um dos pressupostos do acordo alcançado para a viabilização do Orçamento consiste na reavalaição destes investimentos.
Prossegue assim no terreno a disputa inter-ministerial que se vem arrastando ao longo de todo este mandato, entre alguma tentativa de racionalidade financeira incutida pelo Ministro das Finanças e a deslocada ambição Fontista do Ministério das Obras Públicas.
Em Braga, um quilómetro de estrada que vai garantir o acesso ao novo Hospital Central – a inaugurar em Maio de 2011 – reveste-se de várias particularidades.
Em primeiro lugar, com um valor global de 8,2 milhões de Euros, este acesso entra seguramente no ranking do maior custo por quilómetro das estradas do País.
Por outro lado, não está sequer assegurado que o mesmo esteja concluído antes da data prevista para a abertura do Hospital.
Em terceiro lugar, não deixa de ser estranho que um acesso previsto desde a data de lançamento do concurso do Hospital (em 2005) tenha que ser adjudicado por ajuste directo a escassos meses da conclusão da obra do referido equipamento. E que, para cúmulo, os últimos meses deste atraso tenham resultado da incúria da Câmara Municipal na protecção de um Monumento Nacional visado pelo projecto inicial do acesso.
Mas, como dizia Ernâni Lopes há cerca de um ano, em Portugal “faltam ideias, verdade, força, lucidez, substância, garra e densidade política nas medidas económicas”, evidenciando-se “uma incapacidade de concretizar o que tinha sido programado e um desempenho muito fraco”.
Daí que, concluísse o ex-Ministro das Finanças “Portugal auto-limitou-se e enganou-se a si próprio”, sugerindo que “nos últimos dez anos, a sociedade foi iludida por promessas políticas irrealistas e não concretizáveis” e assegurando que “Portugal tem mostrado uma leitura fantasiosa da realidade económica, sem rasgo para o futuro, numa atitude interesseira e egoísta, vazia de substância, sem horizonte e sem nobreza”.
Ernâni Lopes, uma personalidade de perfil austero mas de uma imensa credibilidade, parte no final de uma “década perdida e historicamente inaceitável” para o País por que sempre lutou.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Greve, para quê?


O passado dia 24 de Novembro assinalou a realização no nosso País, da segunda Greve “Geral” em mais de duas décadas, com contornos e evidências que merecem uma aturada reflexão.
Como tende a acontecer em todas as greves, mais do que as palavras de ordem que a antecederam ou as declarações enfáticas produzidas no seu decurso, importam os saldos finais das adesões, que redundam invariavelmente em contabilidades totalmente antagónicas.
Assim, na óptica dos seus promotores, as greves são sempre marcadas por um enorme sucesso e participação, com a ressalva de que os demais só não aderiram porque estavam a ser alvo de pressões e ameaças exacerbadas das entidades patronais.
Pelo contrário, as entidades patronais ou o Governo defendem que a greve registou níveis mínimos de adesão e que, muitos dos que foram considerados grevistas apenas participaram no protesto com medo das retaliações dos colegas.
Em relação à greve da passada Quarta-feira, a primeira ressalva que se pode fazer, independentemente das opiniões expressas de parte a parte é que de “geral” a mesma só teve a origem na convocação simultânea por parte das principais centrais sindicais – UGT e CGTP – e de vários outros sindicatos independentes.
Na prática, porém, a greve foi francamente focada no sector público – onde registou níveis de adesão consideráveis – sendo praticamente residual no sector privado. Mais, boa parte da adesão registada nesse sector resultou dos fortes condicionalismos que a greve provocou num sector crucial para o normal desenvolvimento da actividade económica - o dos transportes – e que impediu vários milhares de portugueses de se deslocarem para os seus postos de trabalho.
Se juntarmos a tal evidência os constrangimentos de muitas famílias que resultaram do encerramento das escolas e da necessidade de darem o devido acompanhamento aos seus filhos menores, compreende-se que a parcela de grevistas “não aderentes” tende a aumentar.
Pessoalmente, considero que a greve é um direito garantido constitucionalmente e que quem o exerce o faz na convicção de que está a defender os seus interesses e/ou os da sua classe profissional.
Daí que, entenda, toda e qualquer greve merece o respeito pela opção de quem a ela adere, desde que o faça de forma consciente e não forçada por via de outras condicionantes, como sejam os execráveis “piquetes de greve”.
O respeito por tal opinião não tem todavia que se traduzir numa concordância com a mesma, seja nas suas motivações, seja nos resultados esperados.
Neste caso, a greve do dia 24 revestia-se de contornos ainda mais singulares uma vez que a mesma não era convocada especificamente contra o Governo ou determinada iniciativa política em particular (como aconteceu no passado recente com o Código Laboral), mas era dirigida contra essa entidade abstracta que são “as políticas de austeridade”, num saco em que, na medida das conveniências de cada um, ora cabia o Governo do PS, ora a cumplicidade do PSD, ora as imposições de Bruxelas, ora os ataques dos especuladores do mercado, ora, ora, ora…
A ser assim, a situação é ainda mais grave por dois motivos. Desde logo, porque demonstra que mais do que a perda de penetração na população activa, as estruturas sindicais tendem a resvalar para a perda de consciência sobre a realidade envolvente, mergulhando em modelos utópicos que são apanágio dos partidos de extrema-esquerda ou de candidatos presidenciais desorientados.
Bem pelo contrário, aquilo de que o País necessitava neste momento era de estruturas sindicais fortes, corajosas e colaborantes, disponíveis para encontrar as soluções que permitissem ultrapassar os bloqueios estruturais com que Portugal se confronta e evitar o trágico destino que se avizinha.
Em segundo lugar, porque esta greve estava à partida condenada ao insucesso, não tanto pelo número de participantes, mas pela irrelevância do seu impacto na alteração das políticas públicas (tanto mais que os desmandos dos Governos socialistas dos últimos 15 anos e os desperdícios colectivos que protagonizámos enquanto Nação vão ter um preço claro a pagar nos próximos anos).
Mais do que um protesto ou reivindicação, esta greve foi a afirmação de um estado de alma, de todos quantos quiseram dizer que não são felizes. Mas, mesmo aí, talvez até só tenha captado a adesão dos que menos razões têm para se sentir assim.

PS – No passado fim-de-semana, a campanha do Banco Alimentar voltou a bater recordes de donativos angariados junto das diferentes comunidades.
É que, mudar o “estado das coisas”, em benefício do Pais e dos cidadãos, não é algo que se sonhe, prometa ou exija. É algo que se faz!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

As Redes Sociais


Longe dos filmes pouco recomendáveis da situação orçamental do País, o mês de Novembro assistiu à estreia no cinema de uma das obras de referência do final de 2010: A Rede Social, de David Fincher.
O filme centra-se na história do aparecimento da mais importante rede social – o Facebook – e nos pormenores que envolveram a sua criação e afirmação, por iniciativa do jovem estudante de Harvard Mark Zuckerberg, hoje um dos grandes bilionários mundiais.
Não se pretendendo transformar este espaço numa crítica de cinema, nem muito menos proceder à análise sociológica ou tecnológica deste fenómeno, esta referência serve como indicador adicional da relevância que esta temática hoje tem nas sociedades desenvolvidas, em complemento à constatação de que o dito Facebook reúne 500 milhões de pessoas de 207 países.
Deixo-lhe uma outra pequena demonstração do potencial destas redes sociais que, além de disponibilizarem diversas funcionalidades aos seus utentes são já hoje muito mais que pontos de contacto entre pessoas conhecidas e “amigos” da vida real, sendo utilizadas para a disseminação de mensagens de cariz político ou social, para a divulgação de eventos culturais, para a afirmação de movimentos cívicos e, já aqui voltaremos, para todo o tipo de acções promocionais por empresas e particulares.
Na passada Segunda-feira à noite recebi um dos muitos convites sui-generis com que somos diariamente confrontados nestes espaços virtuais: um amigo desafiava-me a substituir a foto do meu perfil na Rede por uma imagem de uma banda desenhada da minha infância com que me pudesse identificar, a manter durante o presente mês de Novembro.
A iniciativa que, como sempre acontece, partira de um internauta anónimo, estava já centralizada num grupo que contava com cerca de 10.000 aderentes e tinha pendente a resposta de cerca de 100.000 outros membros da rede.
Depois de muitas Heidis, Anitas, Mafaldas, Princesas Disney, She-ras, Minies e diversos Calvins, Tom Sawyers, Topo Gigios, Marcos, Cebolinhas, Marretas, etc. se juntarem progressivamente ao meu Dartacão, os dados a meio da tarde de Quarta-feira eram elucidativos: 120.000 confirmações, mais de 1 milhão de convites pendentes.
Obviamente, não há, em qualquer outro suporte e em tão pouco espaço de tempo, a capacidade de interagir de forma activa com um quasi-ilimitado leque de destinatários como aqui acontece.
A esta luz, percebe-se que este fenómeno não poderia ficar à margem de uma lógica fortemente comercial, não apenas dos criadores e gestores da Rede, mas sobretudo por parte dos vários utilizadores, nomeadamente de cariz empresarial.
Há, pois, duas questões que se colocam de forma particular e para as quais não parece haver uma resposta incontestável: pode uma empresa manter-se à margem destes novos canais de comunicação com os seus clientes, actuais e potenciais? Deve uma empresa centrar as suas acções de Marketing nestes canais e abandonar os suportes tradicionais?
A resposta a ambas as questões não foge da tradicional discussão em torno dos recursos disponíveis para investir na área do marketing por parte de cada empresa e sua alocação entre os diferentes suportes comunicacionais, em função dos respectivos custos e benefícios e das estratégias que a empresa pretenda prosseguir.
Ainda assim, parece ser demasiado tentador o ter acesso, a tão baixo custo, a um tão vasto leque de interlocutores (e, logo, clientes potenciais) para que a empresa, qualquer empresa, possa passar à margem da realidade das Redes Sociais.
Há, porém, um aspecto muito importante a salvaguardar. Por mais simples e económico que possa parecer, o aproveitamento destas redes sociais é extremamente exigente, carecendo de abordagens consistentes, criativas e alicerçadas em mecanismos de captação e fidelização do interesse dos públicos-alvo.
Mais do que criar uma “conta” ou uma “página” para promoção da empresa, dos seus produtos ou serviços, a empresa tem que transformar essa informação em valor acrescentado para os seus destinatários, alicerçando-a em conteúdos bem construídos e dirigidos para os objectivos a atingir.
A não ser assim, mais vale manter-se fora das Redes Sociais… enquanto puder!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Santos e pecadores


Se há algo que, sendo por vezes incontornável, me causa algum desconforto, como sempre sucedeu ao longo dos últimos onze anos de “colunista económico”, é a circunstância de ter que escrever sobre alguém com quem tenho alguma proximidade.
Desde logo porque, a ser por boas razões, temo estar a ser parcial no juízo efectuado, vendo a racionalidade ser toldada por outros factores de natureza emocional.
Pelo contrário, quando me vejo forçado a assumir uma postura crítica do desempenho, da conduta ou do discurso de alguém que merece o meu apreço, hesito sempre entre a tentação da condescendência e o receio dos danos que podem resultar de tal opinião, quanto mais não seja no plano das relações pessoais.
Em verdade, este é um desses momentos.
O “meu” Professor Fernando Teixeira dos Santos, hoje reconhecido por todos os Portugueses na sua qualidade de Ministro das Finanças, é uma pessoa com quem sempre cultivei uma óptima relação e a quem reconheci o valor associado às suas capacidades técnicas e científicas, a sua ponderação e bom senso, a postura determinada na defesa das suas convicções e a capacidade para estabelecer bases de entendimento em contextos de disputa de interesses.
Foi assim que sucedeu no nosso relacionamento professor/aluno, nas participações comuns em diversos órgãos de gestão da Faculdade de Economia do Porto e em diversos contextos profissionais posteriores.
Apesar da experiência “nacional” que resultava da Presidência da CMVM – Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e da passagem pela Secretaria de Estado das Finanças com Sousa Franco no primeiro Governo de António Guterres, a sua indigitação para Ministro das Finanças após a ruptura de Luís Campos e Cunha acabou por ser uma boa surpresa.
Em particular durante o primeiro mandato de José Sócrates, e pese embora a falta de sentido político que pautou algumas das suas intervenções públicas (muitas vezes em abono da sua própria credibilidade), Teixeira dos Santos assumiu-se como um Ministro disciplinado e disciplinador, mas com resultados pouco sensíveis no processo de consolidação orçamental.
Aqui, tal como transpareceu para a própria opinião pública, o Ministro das Finanças ficou várias vezes com o ónus das opções menos simpáticas do ponto de vista político, entrando até diversas vezes em contradição com outros colegas do Executivo e com o próprio Primeiro-Ministro, José Sócrates.
Nesse período, Teixeira dos Santos construiu uma aura de uma espécie de “grilo falante” da governação socialista - qual consciência última dos despautérios praticados pelos Governos de Sócrates -, numa tarefa tão louvável quanto mal sucedida por entre a cultura do desperdício, da tomada de assalto do aparelho de Estado e do populismo reinante, em especial em períodos pré-eleitorais.
Percebeu-se, pois, a saturação com que atingiu a fase final desse mandato e as expectativas publicamente ventiladas de uma “reforma dourada” que pudesse recompensar devidamente os serviços prestados à Pátria no exercício dessas funções.
Acontece, porém, que esse exílio não se consumou e que, continuando Ministro das Finanças, Teixeira dos Santos se vê confrontado com uma conjuntura política, económica e financeira cada vez mais agreste, à medida que se altera a conjuntura internacional (ou a perspectiva como a envolvente olha para situações como a portuguesa) e que, sobretudo, se vai descobrindo o muito lixo que a Governação de Sócrates procurou esconder debaixo do tapete.
Sem a solidariedade política e efectiva do resto do Executivo e do Primeiro-Ministro – sistematicamente mergulhados numa lógica de facilitismo e deslumbramento que muito condicionou as nossas possibilidades de mitigar de forma atempada os graves problemas que o País hoje enfrenta -, sem a capacidade política para gerir melhor algumas das suas intervenções públicas recentes e, porventura, sem a visão ou a vontade para encontrar soluções efectivas para os problemas existentes, Teixeira dos Santos tornou-se um dos rostos do colapso do Governo, do seu irremediável fracasso nas metas traçadas, em particular na esfera orçamental, e da nossa condenação colectiva a um prolongado período de “vacas magras”.
Nesta fase, invocar situações como os deslocados ataques aos Presidentes de Junta de Freguesia, as críticas à “falta de patriotismo” da PT no processo dos dividendos, a famigerada entrevista ao Expresso em que colocava a taxa de juro de 7% sobre a nossa dívida soberana como o limiar para a intervenção do FMI, ou os atrasos e erros técnicos do OE/2011 são meros apontamentos no turbilhão de incidências que já conduziram à sua “nomeação” como “Pior Ministro das Finanças da União Europeia” em diversos media internacionais de relevo.
Sejamos claros: pessoalmente, continuo a achar que Teixeira dos Santos não é aquilo que hoje parece.
Mas, como se pode beber da sabedoria popular, “Diz-me com quem andas…

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Os néscios que paguem a crise!


Como tantas vezes tenho escrito, inclusivamente neste espaço, os problemas mais graves da economia nacional (e, em paralelo, da gestão da coisa pública) arrastam-se de há muitos anos a esta parte e pouco ou nada têm a ver com as circunstâncias mais ou menos favoráveis da envolvente internacional.
Bem pelo contrário, foi por falta de vontade, por falta de visão, por falta de competência e, até, por falta de coragem, que vários Governos lidaram com displicência com esses obstáculos estruturais ao nosso desenvolvimento e que contribuíram para a amplificação das suas consequências, a um ponto que os torna hoje quase irresolúveis (pelo menos no horizonte de uma a duas gerações).
Desde a falta de uma estratégia para o nosso modelo de desenvolvimento económico à forma quase irresponsável (para não dizer criminosa) como se esbanja(ra)m recursos públicos e se condicionou a sustentabilidade futura do Estado – e não apenas do Estado social -, muitos foram os erros repetidos acumulados.
Em especial ao longo dos últimos 15 anos, com o pequeno intervalo da Governação Social Democrata de Durão Barroso, o acumular de erros e omissões é evidente e, tanto mais grave, incompreensível à luz do profuso debate público em torno destas questões e dos condicionalismos impostos pela nossa participação na União Europeia e na Zona Euro, em particular.
José Sócrates, o ainda Primeiro-Ministro e a pessoa que exerceu tal função nos últimos cinco anos, tem sido sustentadamente coerente na sua incoerência, verdadeiro na constante mentira, exímio na arte da ilusão.
Dele, desde cedo, os Portugueses puderam reter a certeza inabalável de que jamais hesitaria em sacrificá-los para prosseguir os seus objectivos, sem que ao mesmo tempo deixasse de prestar o seu apoio nas horas de dificuldades por que iriam seguramente passar, através do braço longo do Estado que, mais que confortar, se estende, estrangula e controla, ao serviço dos propósitos de quem manda.
Na sua petulante humildade, vimo-lo já apresentar múltiplas desculpas e explicações para inverter, sem hesitação nem decoro, inúmeros compromissos e verdades que antes dera por garantidas, jamais incluindo as suas acções e incúrias no rol de responsáveis pelo agravamento das condições económicas e sociais ou pela rotunda falha no cumprimento das metas políticas traçadas.
A ele, ao seu Governo de faz-de-conta, e ao seu extenso rol de acólitos, patrocinadores e dependentes, já lhe chamaram todos os nomes, dos publicáveis aos que constam na nova enciclopédia do calão, dos justos aos que pecam por defeito, dos que emergem naturalmente do seu catastrófico desempenho global aos que desvalorizam iniciativas meritórias concretas em alguns dos sectores-fetiche da governação.
Seja como for, algo se percebeu muito cedo. José Sócrates e o que resta do lado materialista, carreirista e Estado-utilitário do ex-Partido Socialista não servem para Governar Portugal, sendo responsáveis por algumas das maiores malfeitorias da nossa história nos tempos modernos.
A 22 de Junho de 2008, Portugal teve a oportunidade de renascer em Guimarães, com o início formal do mandato de Manuela Ferreira Leite à frente dos destinos do Partido Social Democrata.
Logo no discurso de encerramento do XXXI Congresso do Partido, a líder eleita frisou dois ou três pilares do discurso com que pautou o seu mandato e com que se apresentou às eleições legislativas de 27 de Setembro de 2009: o alerta para a “situação de emergência social”, a agenda de acção para “dar resposta aos focos de pobreza e apoiar os novos pobres”, a crítica à “vaga avassaladora de propostas de infra-estruturas que o Governo anuncia e de que o País nem sempre carece e para as quais manifestamente não tem dinheiro”, o compromisso de apoio “às pequenas e médias empresas que suportam o tecido empresarial”.
Mas este país não é para “velhos”. Nem para gente séria. Nem para quem fala verdade por menos simpáticas que as palavras possam parecer.
Aconteça o que acontecer com a aprovação do paupérrimo Orçamento de Estado para 2011 [cujo destino se desconhece na altura em que se concluem estas linhas], mas cujo conteúdo é quase irrelevante face às adversidades que o País enfrenta e ao escrutínio dos olhares internacionais, os portugueses podem ter duas certezas.
A primeira, é que o seu destino próximo só aparentemente vai continuar a ser traçado no Palácio de S. Bento ou na Assembleia da República, mesmo que o FMI queira conter custos e opte por não deslocalizar alguns quadros para o nosso País no imediato.
A segunda, é que esse futuro vai ser bem pior que o presente de sacrifícios com que já se deparam e muito pior que aquilo que seria se não se deixassem levar por canções de embalar.
Lamentavelmente, não são só os néscios que “pagarão a crise”. Somos todos nós.
E os que se nos seguirão.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Formar Empresários


Há já mais de uma década, a questão da qualificação dos empresários nacionais tem sido trazida para o debate público como um dos entraves estruturais a um superior desempenho da nossa economia.
Neste particular, cumpre ultrapassar uma primeira ambiguidade da questão, que se prende com a confusão de papéis entre os empresários (reais detentores do capital) e os gestores das empresas propriamente ditos.
No nosso país e, em especial, na franja dominante do tecido empresarial – as micro, pequenas e médias empresas – existe uma enorme coincidência destes papéis, o que é ainda agravado pela base familiar que suporta muitas dessas empresas.
Para quem conhece minimamente a realidade no terreno, é fácil perceber que além das lacunas incontornáveis que se podem detectar na baixa capacidade empreendedora e na diminuta cultura empresarial, o que verdadeiramente penaliza a actividade económica e a sustentabilidade das empresas é a falta de competências ao nível da gestão, sejam elas de natureza técnica ou no plano do relacionamento inter-pessoal.
Não há, em tal juízo, qualquer tipo de presunção intelectual. E, bem pelo contrário, há o reconhecimento expresso por aqueles que são capazes de alicerçar projectos de sucesso numa total dedicação às suas empresas, num sentido de negócio e de detecção de oportunidades extremamente apurado, no desenvolvimento de práticas informais de gestão que não poupam no rigor e que contribuem para a afirmação da competitividade e a garantia de rendibilidade desses projectos.
Todavia, é igualmente comum constatar que a generalidade dessas empresas, mesmo algumas que já possuem um número de trabalhadores e volumes de facturação consideráveis, utilizam ainda procedimentos incipientes ao nível do planeamento, orçamentação e controlo de gestão, revelando um estranho desconhecimento sustentado sobre aspectos decisivos para os seus negócios.
Em muitos casos, há igualmente uma falta de estudo abrangente sobre o enquadramento competitivo do seu sector ou produtos (ao nível dos anseios dos clientes, da dimensão do mercado, da actuação da concorrência e de diferentes dinâmicas que podem condicionar a sua viabilidade futura) e, o que é igualmente pernicioso, uma ausência de sentido estratégico na actuação da empresa.
Tantas e tantas vezes, o empresário/gestor e, por arrastamento, a própria organização desconhece ou não possui de forma explícita uma missão, uma visão, um conjunto de valores, um posicionamento e objectivos estratégicos a prosseguir num horizonte de curto e médio prazo (já que, cada vez mais, no longo prazo “estaremos mesmo todos mortos”).
E, como diz a razão popular, “não havendo ventos favoráveis para quem não sabe para onde vai”, não existindo planos de acções e correspondentes mecanismos de controlo que permitam ir ao encontro do cumprimento das inexistentes metas estratégicas, a gestão das empresas transforma-se numa verdadeira aventura náutica em pleno turbilhão do oceano económico mundial.
É claro que nada disto impede que, mesmo nessas circunstâncias, muitas empresas possam apresentar desempenhos positivos, até porque há mecanismos quase automáticos de defesa sempre que soam as campainhas de alerta de tempestade, normalmente orientados para políticas de contenção generalizada de custos que até se podem revelar contraproducentes (no investimento, no marketing, na formação, nos recursos humanos, …).
As oportunidades de melhoria são, porém, ainda muito significativas. E, reconheça-se também, há predisposição de muitos desses responsáveis empresariais para encetar/aprofundar processos de aprendizagem, ainda que tal abertura se tenda a restringir às intervenções sem custos, a expensas de financiamentos comunitários.
Aqui, se há também aqueles cuja visão e cujas práticas os fazem disputar a “Liga dos Campeões” das dinâmicas empresariais, as autoridades públicas não podem esquecer a esmagadora maioria dos que ainda só lutam “pela manutenção” e que ainda carecem desses estímulos públicos.
Há, todavia, algo que formação alguma pode incutir nesses empresários/gestores e que é tanto ou mais importante para o sucesso das suas empresas: o bom senso.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Democracia Económica (II)


Retomando a temática da revisão em curso do programa do Partido Social Democrata (PSD), e porque as mesmas envolvem reflexões que vão muito para lá das fronteiras de uma qualquer estrutura política ou partidária, dou hoje eco de algumas das sugestões que formulei aquando da sessão em que se debateu a “Democracia Económica”, recentemente realizada em Bragança.
Em primeiro lugar, para retomar a ideia de que o programa do partido não é um programa eleitoral nem um programa de Governo, não devendo conter as propostas e as iniciativas em concreto que, a cada momento, materializam os fins e ideais em que o partido se revê.
Todavia, se um programa eleitoral é um contrato celebrado entre o partido e os eleitores, o programa do partido deve ser o “contrato dos contratos”, enunciando os valores, os princípios e, na minha óptica, as metas e os padrões de conduta que devem reger a actuação do partido e dos seus representantes numa lógica de coerência e continuidade.
A esta luz, e reconhecendo a realidade particular com que hoje nos confrontamos, quer no imediato, quer num horizonte temporal mais alargado, o programa do partido tem que ser claro a enunciar um leque de compromissos mínimos, a especificar o que é o partido defende e pretende para o País e como, de uma forma lata, o pode e vai concretizar quando receber a confiança dos cidadãos.
De uma forma muito directa, Portugal confronta-se com três problemas estruturais: um ínfimo crescimento económico que se arrasta há mais de uma década; uma contínua perda de competitividade externa, no quadro de uma economia mundial totalmente globalizada; níveis de endividamento público e externo que ameaçam a sustentabilidade do conjunto da economia e de cada um dos agentes em particular.
No quadro de um programa partidário ajustado a esta realidade, o crescimento económico (e, com ele, a criação de riqueza e de emprego) tem que continuar a ser assumido como a prioridade das prioridades, mas deve hoje ser enfatizado o papel que matérias como o apoio ao empreendedorismo, a criação de condições favoráveis à inovação e à internacionalização dos agentes económicos devem ter na prossecução de tal desiderato.
Ainda como inputs incontornáveis para esse processo de reforço dos factores competitivos mas, também, numa óptica de verdadeira responsabilidade social, o partido deve igualmente assumir um compromisso forte com a democratização do conhecimento e com o investimento na formação e educação dos cidadãos, muito para lá da actual abordagem estatística-panfletária do actual Governo.
A este nível, num horizonte temporal de uma década, o partido deve também assumir como desígnio o dar continuidade às políticas correctas de apoio à qualificação dos recursos humanos e do tecido empresarial, mesmo num cenário de pós-QREN e de diminuição ou supressão dos financiamentos comunitários.
No plano laboral, na certeza da impossibilidade de registarmos progressos significativos na alteração da actual legislação, e perante um cenário impensável de vermos um número crescente de jovens, mesmo com formação superior, a verem vedado o seu acesso ao mercado de trabalho num país cujas qualificações médias estão muito abaixo dos seus parceiros internacionais, a solução tem que passar pela criação de um “mercado de trabalho paralelo”, com novas regras, em que se associa maior flexibilidade contratual a níveis reforçados de protecção, apenas aplicável a quem está a chegar ou a quem opte por a ele aderir de entre a população activa actual.
Outra questão crucial no plano actual, prende-se com o endividamento do Estado e a sustentabilidade das finanças públicas. Neste domínio, o programa do partido deve vincular-se a uma lógica de racionalidade e responsabilidade na utilização dos recursos públicos, abrindo-se ao estudo da melhor opção em matéria de utilização dos recursos em cada sector, regendo-se pela aplicação de análises custo-benefício para todos os investimentos públicos e respeitando plenamente o princípio da solidariedade inter-geracional (que impeça a assunção de encargos no presente, por horizontes temporais alargados, que possam pôr em causa o potencial de desenvolvimento das gerações vindouras).
Muito a propósito das actuais discussões públicas, entendo que o programa do partido deve também assumir um compromisso claro com o princípio da “competitividade fiscal”, isto é da prática recorrente de níveis de fiscalidade mínimos face aos parceiros europeus, que possam assegurar as funções de redistribuição da riqueza e de promoção do bem-estar público que cabem ao Estado mas que não ponham em causa a competitividade da economia.
Aliás, o compromisso com níveis mínimos de fiscalidade seria indutor de ganhos de eficácia na gestão da despesa, ao invés da actual lógica do recurso facilitista ao aumento de impostos como solução de 1ª ordem para todo o tipo de desgovernos orçamentais.
Retomando parte da lógica do Programa de 1974, não creio que seja descabido assumir em sede de programa do partido fins genéricos de natureza sectorial: o país deve ter uma reserva agrícola mínima para fins de auto-sustentação alimentar? Devem os sectores tradicionais ser utilizados como forma de apoio à criação de emprego em zonas mais deprimidas e servir como garantia da preservação do nosso património etnográfico e cultural? Pode o partido comprometer-se com políticas de revitalização dos centros urbanos e de estímulo à criação de cidades criativas? Qual a prioridade a atribuir ao sector das energias alternativas, no quadro de defesa de uma economia sustentável?
Juntando a todos estes ingredientes os princípios da coesão territorial e da coesão social, estaremos em melhores condições para assegurar que existe em Portugal uma verdadeira Democracia Económica, com garantias de liberdade e igualdade de oportunidades para cada um dos agentes económicos e com um país mais desenvolvido, rico e socialmente justo.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Democracia Económica (I)


Em Abril último, no congresso que formalizou a sua eleição como líder do Partido Social Democrata (PSD), Pedro Passos Coelho anunciou a criação de uma Comissão para a Revisão do Programa do PSD.
Iniciou-se então um projecto, coordenado por José Pedro Aguiar-Branco, que envolve a realização de múltiplos debates e sessões públicas, reuniões de órgãos internos, plenários de militantes e o recurso a um vasto leque de plataformas de comunicação que visa maximizar a participação neste processo de revisão do Programa.
Como se pode ler no preâmbulo do Programa do PPD – Partido Popular Democrático, aprovado em Novembro de 1974, “o Programa do Partido não pode ser nem um simples conjunto de medidas concretas articuladas entre si de modo a esboçar uma política de governo, nem tão-pouco um agregado de expressões utópicas ou de carácter demagógico”.
Com efeito, não se pode confundir um Programa de Partido com um Programa Eleitoral ou com um Programa de Governo, porquanto estes últimos devem traduzir as iniciativas, as propostas, os caminhos que materializam em concreto, em cada momento, os fins e ideais que o primeiro preconiza, no respeito pelos valores e princípios que o dito Programa do Partido assume como genéticos e diferenciadores.
A este nível, quer se atente à versão original do programa, quer à revisão de 1992, o PSD sempre se assumiu como um partido reformista, humanista, personalista, interclassista, que coloca como fim último da sua actuação um “projecto de transformação estrutural da sociedade”, com uma “larga e corajosa visão de futuro”, centrado no “combate às desigualdades sociais” enquanto instrumento para construir uma “sociedade mais livre, justa e humana”, em que se promova a “igualdade de oportunidades” e se corrijam os “desequilíbrios a nível pessoal e regional” e se garantam “os direitos económicos, sociais e culturais”.
A justiça e a coesão social, a coesão territorial, um liberalismo moderado que reconhece que “o Estado deve evitar a tentação de tudo fazer, abrindo espaço à saudável iniciativa dos cidadãos e dos grupos” são assim valores que coexistem historicamente no Programa e na acção do PSD com a postura dialogante e o respeito pela concertação social, com o princípio da afirmação da sociedade civil, com o empenho no processo de construção europeia ou com a valorização da Lusofonia.
No plano estritamente económico, o conceito da Democracia Económica sempre conviveu com os objectivos de colocar a “política económica ao serviço do povo português” ou de sustentar “uma economia de mercado orientada para o desenvolvimento económico e social”.
Aqui, se o Programa de 1974 acabava por contrariar um pouco o espírito do preâmbulo, avançando com uma exaustiva enunciação de acções a desenvolver em cada um dos sectores de actividade económica, a versão de 1992 aligeirou o conteúdo mantendo a essência da visão Social Democrata.
Assim, sustenta-se que “a economia deve ter como base a propriedade e iniciativa privadas” numa “lógica de mercado”, mas não excluindo a intervenção do Estado quer enquanto agente regulador, quer enquanto elemento de correcção para as falhas do mercado ou no quadro do desenvolvimento de políticas que salvaguardem o “interesse nacional”.
Orientadas para estimular o crescimento económico e a correcção das desigualdades, as políticas económicas devem ter especial atenção às vertentes da poupança e do investimento, a dirigir prioritariamente para “as áreas educacional, social e infra-estrutural”, sendo esta última centrada no incentivo ao investimento privado e no reforço da eficiência produtiva.
Ainda no Programa de 1992, nota para a ênfase atribuída ao papel da empresa na sociedade – “um instrumento de realização humana e de progresso económico e social” -, para a importância reconhecida à “dignificação do trabalho e do trabalhador”, nomeadamente através do “reconhecimento da competência, do mérito e da valorização profissional” e para a assunção da meta prioritária da “distribuição socialmente equitativa da riqueza”, através da colaboração activa com o sector da economia social.
Se estes valores são imutáveis, a realidade não o é, justificando o reconhecimento de novas preocupações e desafios que devem estar na primeira linha da actuação do Partido aquando da assunção de qualquer tipo de responsabilidades governativas, de cariz nacional, regional ou local.
Razão pela qual voltarei a abordar este tema, daqui por uma semana, a título de contributo para o processo de revisão em curso.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Yuan: a pequena muralha da China


Se ainda associa a China aos seus vastos arrozais, ao legado monumental do seu passado Imperial, a uma cultura e economia fechada sob o pulso firme do regime comunista o mais provável é que ande a ver demasiados filmes das décadas anteriores.
No passado mês de Agosto, os dados relativos à economia mundial consagravam a China como a segunda maior economia do mundo, imediatamente atrás dos Estados Unidos e ultrapassando o Japão, que detinha essa posição de há 40 anos a esta parte.
Porventura, poderia já ter constatado o poderio chinês nas notícias que invocavam a invasão dos produtos asiáticos nos mercados europeus como a razão de ser do esvaziamento de diversas indústrias tradicionais.
Ou, seguramente, ter-se-ia já apercebido que as “antigas” lojas dos trezentos de bairro deram lugar a mega-superfícies comerciais, com uma gama infindável de produtos discount, com uma qualidade não desprezível, um pouco por todo o País.
Nesse particular, mais do que um caso atípico, a “invasão chinesa” atesta de uma estratégia sustentada de conquista dos mercados externos, a uma escala global, quer como meio de escoamento da sua produção, quer, nalguns casos, como forma de assegurar o aprovisionamento das necessárias matérias-primas.
Percebe-se, pois, que a China surja hoje como principal parceiro comercial de diversos países do Continente Africano ou da América Latina, não a título de solidariedade entre países em vias de desenvolvimento, mas graças à pujança e crescimento de uma economia verdadeira “capitalista” e globalizada.
Olhar para os diferentes dados estatísticos da China serve apenas para confirmar essa presunção óbvia: a China é hoje uma verdadeira potência económica e poderá a breve trecho destronar os Estados Unidos da liderança das economias internacionais.
O país mais populoso é também aquele que mais consome energia e que mais gases emite para a atmosfera, razão pela qual tem assumido uma postura intransigente de rejeição dos vários acordos internacionais na esfera ambiental.
Também em Agosto ficou a saber-se que a China registou, pelo terceiro mês consecutivo, um excedente na balança comercial, na ordem dos 20 mil milhões de dólares (cerca de 15,7 mil milhões de euros). Para tal, realizou exportações no montante de 139,3 mil milhões de dólares e efectuou importações que atingiram os 119,27 mil milhões de dólares, cifras que se assumem como as segundas mais altas da história das trocas comerciais do país (com aumentos de quase 35%, cada).
Visto do lado Ocidental, este mercantilismo chinês vem causando um significativo incómodo, em particular nos Estados Unidos, razão pela qual os principais agentes políticos e económicos americanos vêm defendendo a necessidade de uma valorização da divisa chinesa: o Renminbi ou Yuan.
A ideia subjacente é a de que um potencial fortalecimento da moeda chinesa retire competitividade às suas exportações e incentive as importações, assim contribuindo para acelerar a recuperação das economias ocidentais.
Caso tal não aconteça, há já quem sugira que a Administração Obama deve avançar com sanções comerciais contra a China, o que parece não estar a preocupar os responsáveis do Governo Chinês, que garantem não ser permeáveis às pressões externas na definição das suas políticas monetárias.
Até ao momento, reconhecendo-se que a China ainda precisa de reforçar outras vantagens competitivas mais estruturais, ao nível das qualificações, da capacidade de inovação, da eficiência dos mercados e das empresas, terá que se apontar aos baixos custos salariais (que tanto encantaram o então Ministro da Economia Manuel Pinho) o principal sucesso dos seus produtos nos mercados internacionais.
Acontece, porém, que os desequilíbrios de rendimento criados pelo crescimento acelerado das últimas décadas, as notícias sobre os primeiros episódios de escassez na contratação de recursos humanos, as reivindicações de aumentos salariais (até por contraponto com os níveis remuneratórios dos recursos estrangeiros na China) estão a criar fortes pressões para um aumento progressivo dos salários e a inerente redução de tal vantagem competitiva nos próximos anos.
E, nesse cenário, a manutenção de uma divisa de baixo valor, cada vez mais utilizada e reconhecida a nível internacional (ainda que não totalmente convertível em outras moedas) – como resulta de várias iniciativas que vêm sendo encetadas pelo Governo Chinês ao nível das trocas comerciais e dos mercados financeiros - pode bem ser o segredo do prolongamento do actual sucesso chinês.
O “pequeno” Yuan seria assim a nova muralha da China...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Portugal na lama


Qualquer gestor sabe que um dos elementos fundamentais de um projecto empresarial de sucesso pode bem ser a correcta gestão da marca da sua empresa ou dos seus produtos ou serviços.
Aliás, o mesmo conceito se aplica a diversas organizações sem fins lucrativos, aos partidos políticos ou até a indivíduos de um vasto leque de actividades profissionais, sejam elas artísticas ou técnicas.
Assegurar que uma marca é conhecida, apreciada, respeitada e que se mantém portadora de todo um conjunto de atributos que mais reforçam e atestam da sua valia não é tarefa fácil, sendo normalmente o resultado de um esforço continuado no tempo e sustentado em certa estratégia.
Todavia, como em tantas coisas na vida, a delapidação do património de uma marca é bem mais fácil e célere que o processo que conduziu à sua afirmação, podendo mesmo resumir-se a um incidente de um instante cujos danos podem ser dificilmente reparáveis ou mesmo irreversíveis.
Há, porém, excepções a estes princípios, sendo o mundo do desporto especialmente propenso à existência de processos de regeneração acelerada. Afinal, quantas não são as personagens que actuam neste palco que não passam pelo carrossel de emoções que transforma as bestas de um dia nos bestiais do dia seguinte e vice-versa?
Mesmo dando esse desconto, a verdade é que aquilo que se está a passar ao nível da Federação Portuguesa de Futebol, e com especial ênfase na Selecção Nacional sénior, é bem merecedor do título de capa de um dos jornais desportivos na edição do dia que se seguiu ao vergonhoso empate com a Selecção de Chipre: “E ninguém vai preso!
À actual equipa dirigente da Federação, cujo Presidente exerce funções há já 14 anos – um recorde na centenária história da instituição -, podem assacar-se várias críticas pela forma como tem pactuado com os principais dislates administrativos do futebol nacional, pelo parco investimento no futebol de formação, pelas contínuas incongruências em matéria de justiça e disciplina, pela falta de qualificação da arbitragem e do dirigismo (cuja renovação, por razões óbvias, nunca foi também um objectivo a prosseguir).
Ainda assim, há um mérito que não lhe pode ser negado: neste período, Portugal viveu o mais extenso período de sucesso do futebol nacional, com consecutivas qualificações para as principais provas internacionais, com o registo de classificações meritórias nestas, com a projecção de jogadores e treinadores para níveis de mediatismo de escala planetária, com a celebração de chorudos contratos de sponsorização e a obtenção de vultuosos cachets pela participação em meros amigáveis.
Em suma, ainda que beneficiando de uma série de circunstâncias externas (como a notoriedade individual dos atletas e o trabalho dos clubes) e tendo adquirido estranhos tiques burgueses (próprios do novo-riquismo reinante), a Federação construiu uma marca – a Selecção Nacional – com ganhos financeiros efectivos em diferentes domínios e com um benefício imaterial não despiciendo sobre a própria auto-estima do País.
No período mais recente – desde a qualificação para o último Mundial -, Portugal começou por perder a força da marca dentro de campo, substituindo um futebol atractivo que nos facultou o título de Brasil da Europa (antes mesmo dos processos de naturalização de jogadores) por exibições amorfas, excessivamente calculistas e entediantes.
Fora de campo, a Federação já demonstrara que não era muito dada a exercícios de liderança quando se escusou a criticar sequer um Seleccionador que tentou agredir um adversário no relvado numa partida oficial. Daí a tolerar os enxovalhos a uma equipa de profissionais da ADOP no famigerado controlo anti-doping da Covilhã vai uma curta distância, em mais uma demonstração triste dos padrões que se querem incutir aos praticantes e adeptos da modalidade.
Em linha com as boas práticas nacionais, o que antes era um pormenor infeliz pode agora tornar-se um bom pretexto para consumar uma decisão que a dita Direcção da Federação devia ter tomado imediatamente após o Mundial, apenas em função do desempenho desportivo.
De Selecção com lugar cativo no Top-10 da FIFA, Portugal passou rapidamente a objecto de caricatura e enxovalho no plano internacional, tendo já posto seriamente em risco a sua participação no próximo Europeu de Futebol.
A Agostinho Oliveira, Carlos Queiroz e outros que tais, resta invocar a máxima do Velho Capitão benfiquista Mário Wilson: “- Quem dá o que sabe, a mais não é obrigado…
A Queiroz, porém, reconheça-se a capacidade visionária: há quase duas décadas, bateu com a porta da Selecção com palavras que hoje se revelam plenamente actuais: “-É preciso limpar a porcaria da Federação!
Como a participação no Euro já está ameaçada e uma suspensão das competições internacionais nem causa grande mossa, resta apelar ao Secretário de Estado Laurentino Dias que dê alguma utilidade à sua vocação para a ingerência na esfera do movimento associativo: arranje forma de substituir Madaíl e os seus pares. Já! A bem de Portugal…

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

E o que mais Verão

Desta vez o calor chegou com toda a força e na hora certa para não deixar desiludidos todos quantos ansiavam por uns merecidos dias solarengos, de “papo para o ar”, nas praias, piscinas e jardins do nosso País.
Todavia, enquanto uns descansavam, muitos lutavam em condições desesperadas por conter uma das maiores ofensivas recentes dos tradicionais incêndios da época, ora provocados por negligência, ora causados por mãos criminosas que a justiça ainda não pune devidamente.
Num e outro caso, por entre as tentativas tantas vezes hercúleas para minimizar os danos em bens materiais, as ameaças a zonas habitadas e os atentados a espaços ambientalmente protegidos, repetiram-se as queixas sobre a insuficiência dos meios, a falta de coordenação das respostas, a ridícula invocação de estatísticas mais favoráveis pelos responsáveis governativos.
Saudou-se, como sempre e bem, a bravura dos bombeiros, lamentou-se a falta de medidas e atitudes preventivas e avançou-se com propostas de ressarcimento dos danos ou de penalização dos negligentes, esquecendo que, na maior parte dos casos, é o Estado ou Entes Públicos quem dá o pior exemplo…
Logo que a temperatura abrandou e que as primeiras chuvas temperaram as agruras estivais, a nossa vocação catastrófica transferiu-se para as estradas, acumularam-se os acidentes, fomos confrontados com tragédias como a que esta semana ocorreu na A25 e outras tantas – ainda que menos impactantes do ponto de vista estatístico – nos quilómetros, portajados ou não, que nos percorrem de lés-a-lés ou que levam e trazem os “nossos” aos/dos seus ofícios para lá das nossas fronteiras.
Por outros caminhos, da animação do Pontal à secura de Mangualde, acelerou-se nas palavras e aqueceu-se o tom do discurso político, lançando algum nevoeiro sobre os meses que se seguirão.
De um lado, exigiu-se o óbvio: opções claras, justas e atempadas em matéria orçamental e assumiu-se a desvinculação de uma política em que se disfarçam os contínuos e agravados descalabros do lado da despesa com a arrecadação sôfrega de receitas fiscais, a expensas das famílias e da competitividade da nossa economia.
Do outro, utilizou-se o expediente habitual (porque sempre bem sucedido até prova em contrário), da manipulação do campo mediático, da martirização política, da afirmação das “causas sociais” e dos “ideais de esquerda” que qualquer análise mais descomprometida pode facilmente desmontar.
E terá havido Verão em que os Governantes em funções mais primaram pelo disparate, ao ponto de os próprios terem de assumir sucessivos desmentidos? Os aumentos da função pública, as passagens com notas negativas, os “espiões” cujas missões são anunciadas pelos responsáveis?
Como seria de esperar, a economia também sorriu, timidamente; o desemprego estancou, como é normal na estação, mas a fuga do mercado de trabalho é também notória; as prestações sociais estão a ser reavaliadas e a permitir algumas poupanças por entre o despesismo generalizado.
Em Agosto, renovam-se anualmente as esperanças dos aficionados, prometem-se novas conquistas, e fazem-se avultados investimentos em contra-ciclo (ou deveria dizer-se contra-senso) com os passivos acumulados e as sucessivas reestruturações financeiras, que tantas vezes se assumem como péssimas opções estratégicas.
Também aqui, há espaço para o exemplo. Com os tostões contados, sob uma liderança de pulso, um discurso e postura ambiciosa e um espírito de luta indomável – que noutras esferas se poderia traduzir em esforço colectivo e produtividade – o Sporting Clube de Braga lá vai conquistando os seus milagres… e os seus milhões.
Afinal, a demonstração de que com rigor, planificação e capacidade de trabalho se consegue a “competitividade” necessária para fazer de cada mês uma Primavera.
Em Portugal, com o Outono ainda distante, resta esperar que sejam assim positivas as cores com que se vão pintar os dias que restam deste Verão.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Raízes


Historicamente, os Portugueses nunca hesitaram em largar amarras, partindo à descoberta do desconhecido, à aventura no incerto, à conquista de novos mundos ou à compulsiva procura de um futuro melhor fora das fronteiras do seu País.
Talvez por isso, esteja hoje espalhada à escala planetária uma enorme fatia deste pequeno Portugal, que não hesita em fazer-nos sentir em casa para onde quer que queiramos viajar.
Mais do que meros laços com a História - como os legados que encontramos nos diferentes Continentes -, trata-se de uma realidade bem presente, com comunidades vivas e um sem número de histórias de afirmação e sucesso nos países de acolhimento, nos mais diversos ramos de actividade.
Todavia, salvo qualquer ligação pessoal ou familiar mais directa, esse(s) facto(s) tende(m) a passar-nos ao lado e não merece(m) sequer qualquer tratamento noticioso de relevo, que não no quadro dos apontamentos pitorescos com que se faz a cobertura de deslocações de representações nacionais ao estrangeiro, seja no plano político (das viagens oficiais do Presidente da República ou do Primeiro-Ministro), seja na esfera desportiva (como mais uma vez sucedeu aquando do Mundial da África do Sul).
Se há uma parte substancial do Portugal “de cá” que se lamenta da forma como é constantemente esquecido pelas esferas de decisão e pelos palcos mediáticos, compreende-se – ainda que não se aceite – que o mesmo possa suceder de forma ainda mais vincada com esse Portugal “de lá”.
Acontece, porém, que a insistência em tal postura pode ter gravosas consequências para o nosso futuro como Nação, seja pela quebra dos laços dos emigrados com o seu País-Natal, seja pelo desprezo que alguns vão votando ao sotaque afrancesado com que se cruzam nas ruas das nossas cidades, nas praias e nas aldeias.
Para o Portugal “de cá”, a questão é muito mais abrangente que o potencial de remessas que poderá receber dos mais de 4 milhões de portugueses de 1ª geração que se encontram emigrados e dos milhões de luso-descendentes que mais engrossam a universalidade lusitana, por mais que esta cifra sempre tenha assumido um papel muito importante no equilíbrio das nossas hoje totalmente desequilibradas contas externas.
Nos dias que correm, por exemplo, a falta de oportunidades de trabalho e as menores perspectivas económicas levam muitos dos nossos melhores recursos a procurar outras paragens para o arranque ou desenvolvimento das suas carreiras, num fenómeno que acarreta problemas quer no plano social (pelo contributo para a quebra da natalidade e para o envelhecimento da população), quer no plano económico - pese embora as vantagens imediatas na mitigação da taxa de desemprego e na redução dos custos com prestações sociais.
Seja em relação a esta nova vaga de emigrantes, seja em relação às referidas comunidades há muito instaladas nos diferentes países de destino, a verdade é que se impunha um outro relacionamento e um acompanhamento bem mais próximo, no quadro de uma estratégia clara de desenvolvimento económico, quer pela valorização do seu potencial turístico, quer pelo papel que podem assumir na internacionalização da economia nacional.
Como já muitas vezes defendi, esses Portugueses “de lá” são peças cruciais no reforço do nosso potencial de crescimento, potenciando o aproveitamento de canais de distribuição para os produtos portugueses, viabilizando a criação de uma rede de parcerias entre empresas domésticas e empresas de portugueses emigrados, reforçando a atracção de investimento produtivo para o nosso país, assegurando a promoção de Portugal e das empresas portuguesas, entre muitos outros contributos assinaláveis.
Como Cavaco Silva fez questão de frisar na sua recente visita a Cabo-Verde, os nossos emigrantes são a nossa “guarda-avançada”, podendo dar uma ajuda significativa aos nossos empresários locais.
Juntos, como se podia ouvir na música que Kátia Guerreiro interpretou na campanha para as Eleições Presidenciais de 2005, poderemos “fazer Portugal Maior, romper a bruma, abrir o dia, rasgar o medo, fazer melhor”.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Era uma vez a BP?


Qualquer medida tomada hoje na área do Ambiente terá a sua repercussão a médio e longo prazo. Por isso, a aposta na Qualidade é para a BP uma exigência do presente.
Somos uma companhia preocupada em implementar soluções que minimizem os efeitos que uma actividade como a nossa possa causar.
A nossa conduta ética ultrapassa as questões financeiras. As práticas e políticas que implementamos e seguimos abrangem os nossos colaboradores, a comunidade envolvente e a segurança.
A lista de citações que se encontram nos Relatórios e Contas, no Relatório de Sustentabilidade e no próprio site institucional da empresa poderia continuar de forma quase infindável e, quase sem excepção, deixar-nos com a sensação de que mesmo a mais firme prática ou convicção de uma qualquer empresa pode ser posta em causa num volte-face do destino, seja ele provocado por culpas alheias, por erros próprios ou por mero azar…
Todavia, a análise do derrame verificado no Golfo do México numa plataforma petrolífera da BP vaio muito para lá da mera perda de “credibilidade” da empresa em relação à sua conduta neste âmbito específico, com efeitos tão devastadores sobre a própria quanto aqueles que teve, está a ter e terá sobre o meio ambiente no local, naquilo que o Presidente Obama classificou de “11 de Setembro ambiental” para os Estados Unidos.
Em termos financeiros, as contas não são fáceis de fazer mas parecem ter dois sentidos únicos: a soma dos custos e a quebra das vendas e lucros da empresa, em cifras que, segundo os dados agora divulgados, se cifraram em mais de 13 mil milhões de Euros de prejuízo só no segundo trimestre de 2010.
Para se atingir estes montantes, há que ter em conta, quer a quebra de produção e o petróleo derramado durante estes meses a um ritmos alucinante de vários milhares de barris por dia – segundo estimativas do Governo americano, entre 5,7 a 9,5 milhões de litros de petróleo por dia - , os esforços de contenção da fuga e, na parcela que será porventura mais importante, o custo das indemnizações que a empresa terá que suportar pelos impactos ambientais causados.
Aqui, o Presidente dos EUA assumiu desde a primeira hora um discurso contundente, pugnando pela compensação integral dos danos do derrame, incluindo o ressarcimento das quebras das várias actividades económicas dos Estados costeiros visados pela conduta “imprudente” da empresa.
Ainda do ponto de vista governamental, este acidente voltou a relançar o debate em torno da dependência do petróleo, da necessidade de investir na produção de energias limpas e originou até a decisão de suspender a autorização para exploração de petróleo em águas profundas no país, com a natural contestação do lobby das empresas petrolíferas.
Apesar de a empresa admitir que o pior terá passado no trimestre findo, tanto mais que foi já anunciada a contenção da fuga em causa na plataforma Deepwater Horizon, que a BP explorava a 1,5 mil metros de profundidade, não é ainda fácil antecipar as repercussões da catástrofe de 20 de Abril sobre a sua realidade futura.
Desde logo, porque o volume das indemnizações, nos bem mais céleres e eficazes tribunais norte-americanos, devem atingir proporções muito superiores às já gravosas previsões iniciais de 15 mil milhões de Euros.
Em segundo lugar, porque é claro que este acidente está a ter repercussões de vária ordem na vida económica e organizativa da empresa, com destaque para a venda de activos com vista a financiar estas operações (em montantes que poderão ultrapassar os 23 mil milhões de Euros) e à própria substituição do Director-Executivo da Empresa, Tony Hayward que assumiu um comportamento errático em todo este processo.
Note-se, até, que face às implicações deste processo, a escolha da Administração para o substituto de Hayward recaiu sobre um norte-americano, Bob Dudley, natural da zona afectada, e com outra capacidade de lidar com a contestação dos seus compatriotas (incluindo o próprio Presidente Obama).
Já Hayward, o CEO cessante da empresa, receberá uma indemnização de 1,2 milhões de Euros, mantendo todas as demais regalias acumuladas, num sinal claro de que, tal como a Federação Portuguesa de Futebol, também a BP gostaria de poder invocar a “razão atendível” para concretizar a substituição deste responsável…

sexta-feira, 16 de julho de 2010

A Bolsa de Valores Sociais


Uma Bolsa de Valores é uma entidade prestadora de um serviço que visa viabilizar a transacção de valores mobiliários às partes intervenientes em atractivas condições de custo e com elevados níveis de transparência e segurança.
Por esta via, faculta o acesso a novas e menos onerosas fontes de financiamento aos agentes deficitários e potencia a disponibilização de um leque alternativo de opções de investimento aos agentes superavitários.
Certo? Certo. Mas não só.
Depois de alguns anos de experiência no Brasil e de algumas iniciativas semelhantes em outros países, o mês de Novembro de 2009 marcou a chegada a Portugal de uma outra Bolsa de Valores, aparentemente imune aos juízos depreciativos sobre as práticas especulativas que sempre impendem sobre os mercados tradicionais.
Bem pelo contrário, a Bolsa de Valores Sociais perfila-se como o instrumento de viabilização de um amplo conjunto de projectos de cariz social, com um espectro geográfico alargado e num também abrangente conjunto de domínios de intervenção, em função das necessidades específicas das populações-alvo de cada um deles.
Desta feita, e na óptica dos agentes compradores dos valores existentes no mercado, não há qualquer lógica de rentabilização do investimento através da valorização dos “títulos” adquiridos, tanto mais que os mesmos não são sequer negociáveis.
Em que consiste então este mercado? Quais as vantagens para os diferentes tipos de participantes?
Se quisermos incutir a esta análise uma abordagem muito simplista, poderíamos dizer que a Bolsa de Valores Sociais não é mais que um espaço de angariação de donativos para projectos de cariz social.
Afinal, os investidores que adquirem as acções dos diferentes projectos listados no mercado, estão precisamente a atribuir um donativo no valor de um Euro por acção à entidade visada, no quadro concreto do projecto aí referenciado.
Aqui, surge uma das principais vantagens deste mercado: o investidor social não só pode escolher entre um leque alargado de alternativas para consumar o seu donativo (beneficiando da centralização da informação e da disponibilização de meios de pagamento expeditos), como se assegura que esse apoio será integralmente canalizado para um projecto concreto – que se lhe afigure especialmente meritório – e não para o conjunto da entidade promotora em abstracto.
Para tal, beneficia do acompanhamento assumido pela entidade gestora da Bolsa de Valores Sociais e do acesso que passa a ter aos Relatórios de Actividades e Contas e de desenvolvimento dos projectos de cujas acções é portador.
Aliás, para cada projecto, o investidor consegue saber desde a primeira hora o montante envolvido e o valor do capital ainda não subscrito, em função das acções ainda disponíveis no mercado.
No caso das empresas, a entidade gestora da Bolsa disponibiliza ainda um conjunto de serviços de apoio à estruturação e implementação de políticas de Responsabilidade Social
Ainda na óptica dos investidores, há que realçar a selecção prévia que é efectuada dos projectos admitidos à “cotação” na Bolsa de Valores Sociais. Tal como é expresso pela Entidade Gestora da Bolsa, a mesma assenta não no mérito dos projectos – que é inquestionável para qualquer iniciativa neste âmbito – mas no seu impacto e na capacidade de alavancagem dos resultados.
Isto é, o investidor sabe que os Euros que vai aplicar em dada acção vão de facto fazer a diferença!
Na óptica dos parceiros sociais – as instituições promotoras dos projectos – é óbvio que a existência da Bolsa abre portas a novas fontes de financiamento e à dispersão dos potenciais investidores muito para lá das fronteiras das Comunidades em que se inserem.
Por outro lado, a selectividade à entrada induz a um maior espírito de inovação nos projectos desenvolvidos e uma maior orientação para a obtenção de resultados sociais visíveis.
Finalmente, a obrigatoriedade de prestação regular de contas aporta também um rigor adicional às práticas de gestão destas entidades.
Por último, cumpre enaltecer a estrutura que viabiliza a existência da Bolsa de Valores Sociais. Da Atitude – a Associação sem Fins Lucrativos que dá continuidade ao projecto criado por Celso Grecco no Brasil -, à Euronext Lisbon, à Fundação Calouste Gulbenkian e à Fundação EDP há que destacar a atitude (passo a redundância) que os coloca como verdadeiros agentes catalisadores da transformação social numa altura em que este tipo de iniciativas, dirigidas às franjas mais carenciadas da população, são absolutamente necessárias.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Manhã de Festival


A influência que as crianças podem ter num processo de compra de qualquer bem é uma matéria de discussão recorrente e que se torna tanto mais pertinente quanto a conjuntura recessiva aconselha a uma prática de consumo mais rigorosa.
Aliás, o recurso a estratégias promocionais que possam visar condicionar os adultos através de mensagens especialmente dirigidas às crianças tem vindo a ser alvo de diversas intervenções normativas e até de acordos de cariz deontológico das empresas do sector e dos próprios investidores no mercado publicitário.
Nalguns países, o combate ao “nagging” – a prática de pressão das crianças sobre os adultos com vista à aquisição de algo (a popular “birra”) – levou mesmo à total proibição de exibição de anúncios publicitários durante os espaços de programação infantis.
Se assim acontece em relação a qualquer bem ou serviço que não se dirige especificamente ao público infantil mas em que, por um qualquer motivo, este possa ter um interesse particular – imagine-se um detergente que oferece bolas de praia ou um jornal que traga como oferta um livro de banda desenhada ou passatempos -, a situação é ainda mais complexa quando as crianças são o “cliente final” do bem ou serviço em questão.
E, neste caso, deparamo-nos com um mercado em contínua expansão. Dos produtos alimentares às guloseimas, dos brinquedos tradicionais aos mais diversos equipamentos electrónicos, dos livros e revistas com os protagonistas da moda aos CDs musicais e aos vídeos e DVDs das séries favoritas, o leque parece ser inesgotável.
A título de registo pessoal de interesses, fica desde já a declaração que não tenho implícito a estas considerações nenhum juízo de valor depreciativo em relação a qualquer desses produtos ou, muito menos, dos seus potenciais compradores, sob pena de transformar estas linhas num mero acto de auto-contrição. Afinal, lá em casa as Bolachas Maria são do Ruca, as de chocolate da Dora e os biscoitos do Panda…
Seja como for, não é por acaso que a própria DECO, as Associações de Pais e organismos que promovem o combate à obesidade infantil têm assumido diversas intervenções públicas no repúdio à publicidade dirigida ao público mais jovem – que preenche uma parte significativa dos espaços de emissão televisiva a este dedicados – e que as principais marcas já se vincularam a condutas restritivas de certo tipo de práticas.
Não se pense, porém, que a questão se cinge à esfera alimentar, tanto mais que o potencial deste mercado tem vindo a ser percebido e aproveitado por um leque crescente de entidades, com ou sem objectivos estritamente lucrativos. E; refira-se, nalguns casos com méritos incontestáveis.
Atente-se, por exemplo, à esfera cultural. Para lá dos referidos livros e revistas induzirem hábitos de leitura, os filmes o gosto pelo cinema e os CDs/DVDs musicais atiçarem o apetite pela música ou pela dança, o sonho de qualquer programador de um espaço cultural é poder polvilhar a sua agenda com um número mínimo de eventos dirigidos ao público infantil. Haverá melhor forma de aumentar as estatísticas de visitantes e até os níveis de vendas de bilhetes?
Qual é o pai/mãe que consegue dizer que não a um daqueles eventos evocativos do Dia da Criança, aos espectáculos do período Natalício, ou à visita de uma estrela de televisão ou de um dos clássicos infantis adaptados para o teatro?
Há, porém, circunstâncias que parecem ultrapassar o domínio da racionalidade.
Depois de no ano passado não terem mostrado muito interesse no Festival Panda, as sucessivas repetições de momentos desse evento levaram as minhas filhas (as mais velhas, com 3 e 5 anos) a fazerem o tal apelo pungente e irrecusável para que pudessem marcar presença na edição deste ano.
Comprados os bilhetes atempadamente (antes que esgotassem como parece ter vindo a acontecer), por um valor que não se pode considerar acessível para qualquer bolso – quase 70 Euros para uma família de quatro pessoas -, eis que chegou o esperado dia do Festival.
Todavia, 30 minutos antes da hora do primeiro dos espectáculos do dia no Europarque, as saídas Norte e Sul da A1 para a Feira registavam dois quilómetros de fila inamovíveis.
Testada a alternativa da A29, novos dois quilómetros de fila aguardavam pelos milhares de crianças que exasperavam e desidratavam a um sol abrasador nas suas viaturas perante a impotência dos pais (e a aparente distracção da Brigada de Trânsito, cujas viaturas só começaram a deslocar-se para o local quando o pandemónio já estava instalado).
Quase uma hora volvida e pouco mais que um quilómetro percorrido, o poder paternal tomou uma decisão que, ainda que com alguma resistência, acabou por ser acatada pelas demais utentes da viatura.
De regresso, deu ainda para ver carros estacionados ao longo da berma da auto-estrada (a mais de 2 km da entrada do Europarque) e pais a saírem com as crianças e os carrinhos pela mão de encontro a um dia inesquecível…
No final, as miúdas não ficaram totalmente defraudadas: aproveitaram o que restava do Domingo para contactarem a fauna das praias da Foz, para mergulharem na selva de Serralves e, apesar de não terem estado com o Panda, sempre viram os pais a fazer figuras de ursos. Ou talvez não…

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Muito mais que um fado


Salvo raras e honrosas excepções, o desempenho dos nossos representantes desportivos a nível internacional, nas mais diversas modalidades mas em especial no futebol, é um verdadeiro repositório de uma enorme colecção de vitórias morais.
Por entre os “quase” tantas vezes invocados e os “se” que nos condicionaram na obtenção de melhores resultados, invade-nos com frequência o sentimento amargo de uma certeza íntima de que poderíamos ter feito algo mais.
Normalmente, claro está, não nos falta a agilidade para encontrar com rapidez um sem número de “bodes expiatórios”, de preferência externos à nossa realidade concreta: a FIFA e seus poderes ocultos, o relvado, o árbitro, a chuva ou o sol, a bola, as atitudes do adversário.
Na prática, nada de muito diferente do que se passa nos demais sectores de actividade e, em concreto, nas esferas económica e governativa.
Em verdade, não fosse tal rótulo poder ser interpretado como uma ofensa para um sem-número de nossos antepassados e contemporâneos que “da lei da morte se vão libertando” e quase poderíamos afiançar que esse espírito de Calimero nos estaria fatalmente intrincado nos genes.
Ainda assim, enquanto grupo / comunidade / Nação, não creiam que essas aparentes fragilidades emocionais e o espírito solidário que revelamos em tantas outras circunstâncias nos amolecem o juízo no que toca a apurar as responsabilidades próprias na menor qualidade do desempenho face às expectativas, bem mais do que face às potencialidades reais dos ditos representantes lusitanos.
Neste âmbito, o carrocel da opinião pública não costuma contemporizar e não hesita em bestializar o mais bestial dos bestiais, reduzindo-o à plena insignificância de um falhado e assacando-lhe, uma por uma, as centenas de erros que, legitimamente, lhe poderiam ou não ser pessoalmente imputados.
São os treinadores, os jogadores, os dirigentes, os médicos, os jornalistas, os adeptos, ou até o próprio roupeiro ou o cozinheiro se se lhes conhecer o rosto ou o nome por via de uma das milhares de reportagens com que os media preenchem os espaços nobres durante as competições em questão.
No futebol como na vida, Portugal é Portugal.
E, para mal dos nossos pecados, o que nos falta em planeamento, estratégia, empenho, entrega e pragmatismo, sobra-nos em capacidade de análise, pelo que a verdade é que por entre a raiva do momento e a maledicência congénita é natural encontrar alguma razoabilidade das críticas.
A esta luz, atente-se ao que se passou com a nossa participação no Mundial de Futebol. Chegando à competição com um ilusório terceiro lugar no ranking da FIFA, e após um nível exibicional sofrível em toda a fase de qualificação, a Selecção viu reforçada a componente entediante das suas performances com uma convocatória em que rareavam as soluções de cariz ofensivo.
De seguida, lá volta o fatalismo, uma ainda inexplicável lesão (?) do seu jogador em melhor forma, cerceou ainda mais essa capacidade, com a sua substituição a atestar da falta de vontade de ocupar as metades do campo adversário com que o seleccionador partiu para esta viagem.
A paupérrima exibição contra a Costa do Marfim – em que sobressaiu, mais uma vez, a falta de atitude competitiva e de capacidade ofensiva da equipa -, os atropelos disciplinares que cedo se evidenciaram no seio do grupo e os tiques de vedetismo dos seus principais protagonistas também não auguravam nada de bom.
Como é típico, contra a Coreia do Norte (um adversário de nível manifestamente inferior) a equipa conseguiu libertar-se dessas questionáveis amarras tácticas e soltar-se para fazer aquilo que, em boa verdade, sabe, poderia e deveria ter feito em outras circunstâncias: jogar futebol.
O jogo contra o Brasil apenas foi “promissor” no sentido que demonstrou que, a espaços, a selecção poderia dar sequência à exibição anterior, mas quem não “arriscou” num jogo com essas características e condicionantes, seguramente não “arriscaria” num jogo a eliminar.
Contra uma Espanha intrinsecamente de grande qualidade mas moral e fisicamente fragilizada, os Navegadores renegaram o espírito dos seus antepassados e, com a excepção daqueles que se destacaram na competição (Eduardo, R. Carvalho, F. Coentrão, R. Meireles e Tiago) optaram por se oferecer para capacho dos nossos adversários, vergados a uma pretensa superioridade que sempre teria que ser confirmada no rectângulo de jogo.
Com excepção desses jogadores, quase todos os demais saem enxovalhados da prova, em linha com um seleccionador que nunca demonstrou estar à altura da nau e do milionário salário que aufere (um dos mais altos entre os presentes na África do Sul).
Com uma Federação que se transformou numa máquina de fazer dinheiro, com hábitos burgueses ao nível da Selecção Nacional, enquanto espreme até ao tutano os praticantes de futebol amador e os escalões de formação, Portugal foi mesmo igual a Portugal.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pára! SCUT. Vê?

As SCUT – estradas em regime de concessão com portagem Sem Custo para os UTilizadores, foram introduzidas no nosso enquadramento jurídico em 1997, seguindo um modelo há muito utilizado no Reino Unido.
Em concreto, as SCUT não são mais que uma aplicação no domínio rodoviário dos princípios subjacentes às “Parcerias Público-Privado” (PPP), através das quais o Estado procura contratualizar com privados a construção de determinadas infra-estruturas, facultando-lhes, em contrapartida, a gestão de tais infra-estruturas por um período subsequente (normalmente, de 20 a 50 anos).
Ao fazê-lo, o Estado consegue diluir por um prazo mais alargado os custos do investimento em tais infra-estruturas (o que releva tanto mais quanto maiores forem os constrangimentos financeiros imediatos com que se deparar) e beneficiar da capacidade de agentes privados especialmente vocacionados para o acompanhamento das diferentes fases da vida destas infra-estruturas.
Neste processo, porém, assumem-se como factores críticos de sucesso, na perspectiva do Estado, a sua capacidade negocial inicial e os mecanismos de controlo da gestão dos recursos públicos durante a vida da concessão.
Por este mesmo motivo, aliás, assistiu-se a sucessivos protelamentos no lançamento dos concursos para os Hospitais em regime PPP, face à tentativa do Estado tentar minimizar o impacto financeiro das concessões, sem prejuízo da qualidade do serviço prestado aos utentes.
No que respeita às SCUT, esta modalidade de financiamento das novas vias rodoviárias generalizou-se durante o primeiro Governo de António Guterres, pela mão do então Ministro das Obras Públicas João Cravinho, permitindo a proliferação de novas e modernas vias por todo o País, em complemento ao mapa de auto-estradas herdado da “era” de Ferreira do Amaral.
De notar, no entanto, que a opção adoptada contrariou, desde logo, os princípios estabelecidos na Lei de Bases do Sistema de Transportes Terrestres, uma vez que a mesma assumia que as concessões apenas seriam aplicáveis a trajectos de longa distância, que não fossem de acesso imediato a grandes centros urbanos e que dispusessem de modelos de cobrança de portagem efectiva, com custo para os utilizadores.
Ora, ao contrário do que decorre de tais princípios, nas SCUTS, o Estado substitui-se aos utentes no pagamento das portagens, proporcionando, ainda que aparentemente, um serviço gratuito. Naturalmente, a “aparência” de tal pagamento prende-se com o facto de o custo não ser directamente suportado pelo utilizador, sendo antes suportado pelo erário público e, logo, pela generalidade dos contribuintes.
Sendo assim, levanta-se a questão da justiça social deste modelo, em que a generalidade dos cidadãos suporta o custo de um benefício que apenas serve a alguns.
Neste cenário, podem sempre invocar-se, com razoabilidade, os princípios da coesão nacional e do impulso ao desenvolvimento de determinadas regiões mais desfavorecidas, mas tais considerações não podem prejudicar uma análise pragmática das opções existentes face à realidade actual e aos objectivos a prosseguir no futuro.
Há já bastantes anos, como o Tribunal de Contas destacou num cáustico Relatório de Auditoria divulgado em Maio de 2003, o Estado constatou que se depara com uma situação insustentável do ponto de vista financeiro, com encargos anuais de várias centenas de milhões de Euros, por prazos que se estendem pelas próximas décadas.
A opção do Governo pela introdução de portagens efectivas nas SCUT, que deveria ser polvilhada com o estabelecimento de regimes provisórios de isenção para residentes e empresas, é apenas uma forma – talvez a única possível – de mitigar este problema. Mitigar, porque sendo certo que tal decisão pode provocar uma quebra do volume de tráfego, tal induzirá reclamações de reequilíbrios financeiros por parte das concessionárias. Em qualquer caso, e mesmo que este cenário se concretize, conseguir-se-á, porém, reduzir drasticamente a factura que o Estado terá que pagar e assumir o princípio do utilizador-pagador.
Enquanto se aguarda por um acto de coerência da política governativa nesta matéria, nomeadamente no que concerne às assimetrias entre diferentes regiões do País, o Norte volta a assumir-se como o parente pobre das políticas de desenvolvimento territorial.
E, só por isso, se justifica o protesto veemente contra mais uma decisão arbitrária de um Governo cada vez mais moribundo.