sexta-feira, 20 de Novembro de 2009

Conto de Natal

(Imagem retirada daqui)
Era uma vez uma cidade que era conhecida como a “Capital do Comércio”.
Progressivamente, porém, à medida que alguns se apaixonaram pela novidade e imponência das grandes superfícies comerciais - que viam como a solução mais fácil e imediata para os graves problemas de desemprego que emergiram no conjunto da sociedade local -, as suas mais-valias tradicionais começaram a degradar-se e a perder atractividade.
Daí que fossem muitas as vozes dos mais diversos quadrantes a clamar por um conjunto de iniciativas que contribuíssem para a revalorização dos espaços comerciais inseridos no centro da cidade, muito particularmente na sua zona do Centro Histórico, quer como elemento de revitalização económica e apoio ao emprego, quer como instrumento de promoção turística, quer ainda como parte fulcral de uma premente estratégia de renovação urbana.
Entre estas, poder-se-iam destacar: a promoção de iniciativas de animação sócio-cultural dos espaços; o desenvolvimento de medidas que estimulassem a fixação de “lojas-âncora” em alguns dos edifícios nobres existentes e hoje subaproveitados; a adopção de uma lógica mais cooperante entre os proprietários e lojistas (como se de uma verdadeira gestão de condomínio se tratasse); até à intervenção na melhoria das condições físicas de acolhimento de visitantes ou turistas e consumidores.
Neste domínio, o sonho de muitos era ver chegar o dia em que toda a Rua do Souto (a principal artéria comercial dessa zona da cidade) e suas zonas contíguas, pudessem ser revestidas de uma cobertura translúcida, erigida em material consentâneo com as condições de segurança exigíveis, até face ao avançado estado de degradação de muitos dos edifícios aí implantados.
Mais do que um mero “centro comercial ao ar livre”, impunha-se que a dita “Capital do Comércio” possuísse um ícone, umas galerias ao nível do melhor que existe no mundo, como se nessa bimilenar cidade fosse possível desfrutar do travo das milanesas Vittorio Emanuele II, das Saint-Hubert de Bruxelas e de outros espaços afins um pouco por todo o mundo.
Ora, desde o ano passado, os habitantes dessa cidade podem viver uma simpática ilusão Natalícia. No âmbito da instalação das iluminações públicas alusivas a esta quadra festiva, uma longa abóbada cintilante cobre estas artérias, ao longo de algumas centenas de metros, como que querendo devolver a luz da vida a esse espaço nobre do centro, tradicionalmente deserto após o encerramento dos estabelecimentos comerciais.
Por entre o tradicional fervilhar de gentes e emoções que se vivencia nesta época do ano, das gargalhadas dos miúdos e dos cumprimentos e reencontros que o ímpeto oferente sempre acaba por propiciar, fica latente a secreta esperança de que, desta feita, a diáfana cobertura não se vá junto com o papel de embrulho e os pinheiros enjeitados a cada novo princípio de Janeiro.
E que, assim, a Capital do Comércio possa voltar a ganhar o seu fulgor e a afirmar-se como destino incontornável de visitantes de todos os pontos do norte da Península.
Porque, também aqui, Natal pode ser sempre que um Presidente da Câmara quiser…

quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Programa de(s)Governo


Após a renovação da confiança dos eleitores nacionais nas Legislativas de 27 de Setembro último, o líder do Partido Socialista e Primeiro-Ministro cessante, José Sócrates, foi novamente indigitado para a liderança do Executivo, constituiu a sua equipa e apresentou na Assembleia da República o seu novo Programa de Governo.
Ora, nas actuais circunstâncias políticas que resultaram desse acto eleitoral, com a constituição de um Parlamento sem suporte maioritário para nenhuma força partidária, o novo Governo terá que fazer “pontes” ainda que circunstanciais com as diferentes forças da Oposição, com vista à viabilização da aprovação dos diplomas que venha a submeter à Assembleia da República.
Enquadrado por estas condicionantes, e tal como sugeriam os comentários difundidos nos principais media generalistas da pretérita semana, seria de supor uma abordagem pragmática do Executivo com vista a assegurar a “conquista” dos votos dos seus opositores: alicerçada numa governação “à esquerda” nas matérias de cariz sócio-político e numa governação “ao centro” nas questões da esfera sócio-económica.
A apresentação, já esta semana, do Programa de Governo não veio pôr em causa essa antevisão, pese embora este documento seja uma cópia relativamente fiel do programa eleitoral do Partido Socialista, também ele pouco prolixo em relação à explicitação da forma de concretização de certos objectivos.
Sobre esta matéria, poderia questionar-se a opção do Executivo de não abrir desde já a porta a um diálogo conciliador com as demais forças partidárias, mas ninguém pode pôr em causa a legitimidade política da opção tomada à luz da vontade popular expressa.
Neste particular, parece até de todo despropositado que as estruturas sindicais e os partidos políticos, bem como a classe visada por esta matéria, venham novamente questionar a manutenção do estatuto docente e do respectivo modelo de avaliação (ainda que tenham razão quanto ao essencial) tendo em conta que sendo essas duas das principais bandeiras do anterior Governo que foram sufragadas em Setembro último, o novo Executivo de Sócrates se encontra plenamente legitimado para manter as suas opções.
Ainda assim, aqui como nas matérias do foro económico, e, em concreto, na recorrente insistência na prioridade aos investimentos públicos – mormente em projectos demasiado onerosos para a saúde financeira das nossas contas públicas e de rendibilidade duvidosa quanto ao seu potencial reprodutivo para a economia no seu todo, a legitimidade eleitoral não se deve sobrepor em demasia ao bom-senso, ao rigor e à cultura democrática.
Neste plano, a ideia repetida até à exaustão de que um aumento desse tipo de despesa, co-financiado por verbas públicas e por fundos comunitários e privados, é a alavanca necessária para promover a retoma económica e promover o bem-estar social e o combate ao desemprego galopante está longe de estar comprovada.
E, bem sabido, as “juras de amor” hoje renovadas às PME e outros públicos, esbatem-se na parcimónia das medidas, na não efectividade dos programas, na tremenda carga burocrática que retarda e esbanja os recursos alocados aos diferentes fundos comunitários.
Mesmo com o mesmo “homem do leme” e com os “homens e mulheres dos remos” por este escolhidos, Portugal precisa de um novo e diferente rumo, se não quer continuar a levar reprimendas públicas nos diversos estudos independentes que vão sendo produzidos por diferentes organismos e credíveis instituições financeiras internacionais.
Antes que a “consequência” seja verdadeiramente incomportável e onere irreversivelmente as gerações vindouras, fazia falta uma amostra de política de “verdade”. Para variar.

segunda-feira, 27 de Julho de 2009

Macro inaugurações. Nano Seriedade.


Em período pré-eleitoral, e com múltiplas e honrosas excepções de governantes que olham para os eleitores como gente capaz de escrutinar a realidade e de ajuizar perante os comportamentos dos mandantes, não há Governo ou Autarca local que não cuide de reservar para os últimos meses ou semanas dos seus mandatos a exibição da obra e a comprovação do trabalho feito.
Para lá das inaugurações “reais” - de projectos já concluídos e prontos a entrar em funcionamento -, acumulam-se as inaugurações “oficiais” - de equipamentos e intervenções já a carecerem da sua primeira manutenção – e as inaugurações “virtuais” - de obras cuja conclusão está longe de ser vislumbrada mesmo à vista desarmada.
Se tal não bastar, pode juntar-se ainda a mediática visita a “obras em curso” ou o incontornável “lançamento da primeira pedra”, quando não a “apresentação pública do projecto”.
O frenesim chega a ser de tal ordem que o comum dos cidadãos quase aspira a que haja actos eleitorais todos os meses, enquanto elemento catalisador do desenvolvimento e dinamizador da acção de quem governa.
Por acréscimo, como não basta promover tais iniciativas se não houver a correspondente adesão popular para atestar do apreço e regozijo do cidadão-eleitor, eis que se junta a devida dose de comes, bebes e festa, na justa medida necessária aos grandes eventos de massas.
Com tudo isto, sofre o depauperado erário público, que assim se vê forçado a suportar despesas aparentemente supérfluas com o único propósito de satisfazer o ego e a agenda promocional dos governantes-candidatos.
Neste particular, cumpre frisar que o actual Governo e, muito particularmente, o Primeiro-Ministro José Sócrates não se enquadra totalmente no perfil enunciado.
Afinal, por mais que o mesmo recorra sistematicamente às referidas inaugurações “virtuais” e demais instrumentos de dinâmica mediática para Português ver – naquilo que desde cedo alguns classificaram com clarividência como a “política do powerpoint” -, a verdade é que essa prática tem sido um contínuo ao longo de todo o mandato e não apenas na antecâmara das próximas Eleições Legislativas.
Há, porém, excessos que justificação alguma permite aceitar como naturais.
Aquilo que se passou em Braga, na passada sexta-feira, em torno da “inauguração” do Laboratório Internacional Ibérico de Nanotecnologia (vulgo INL), devia servir para reflexão de quem quer que ainda tenha algum bom senso nas esferas de decisão.
Um Rei, um Presidente da República, dois Primeiros-Ministros, dois Ministros da Ciência e um Presidente da Câmara, inauguraram, na presença de alguns académicos, de membros do corpo diplomático e de titulares locais de cargos civis e religiosos, um equipamento que apenas estará em condições de funcionar daqui a vários meses e de que apenas o Auditório e uma sala anexa se encontram concluídos.
Para tal, diz-se por entre o ruidoso silêncio que ninguém desmentiu, que foi necessário um investimento adicional de 1 milhão de Euros, com arranjos de envolvente e afins que o normal retomar das obras após o descerrar da lápide rapidamente destruíram.
Para quê?
Dizem, também, vozes oficiosas, que era necessário dar um sinal desta natureza para “seduzir” os 200 investigadores de topo que agora se quer recrutar a nível internacional.
Mas, pode-se perguntar: não seria possível obter um efeito muito superior trazendo a Braga um milhar dos potenciais investigadores de renome para lhes apresentar o projecto, a cidade e o País? Ou fazendo um road-show pelas mais importantes universidades e centros de investigação a que os mesmos se encontram hoje vinculados?
Seguramente que sim. Mas, apareceria na televisão e nos jornais?

sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Touradas


Primeiro registo de interesses: por mais que admire a elegância dos movimentos a cavalo e a coragem dos forcados que encaram o animal, bem mais poderoso, olhos nos olhos, não sou apreciador de touradas.
E nem invoco, por mais que respeite a posição dos defensores de tal causa, os argumentos do tratamento violento e desigual dos animais em compita, das várias Associações de Protecção dos Direitos dos Animais.
De fora, assisti com algum interesse às disputas que se verificaram ao longo dos últimos meses em torno desta questão que, do ponto de vista estritamente jurídico, daria seguramente pano para mangas.
Pode uma cidade declarar-se “livre de touradas” como fez Viana do Castelo? Pode uma Autarquia “vetar” um espectáculo tauromáquico organizado por um privado em espaço privado licenciado para o efeito, como se pretendia fazer em Braga? E podendo, deve fazê-lo?
Confesso que não tenho uma resposta taxativa para estas questões. Mas sei, porém, que jamais tomaria a iniciativa de organizar uma tourada em Braga (por mais que houvesse um grupo local de adeptos para tal “evento”) por considerar que o mesmo não tem qualquer identificação com a cultura e as tradições locais. Da mesma forma, que vejo com alguma dificuldade que se pudesse vedar a realização destas iniciativas em locais como Barrancos, Campo Maior, Santarém ou Alcácer. Enfim, são opções.
Em todo o caso, estavam já estas considerações algo adormecidas na minha mente quando, de um momento para o outro, a própria vida político-económica do Pais se transformou numa enorme tourada.
E não me refiro apenas à expressiva capacidade gestual do ex-Ministro da Economia que, numa das poucas vezes em que se fez entender de forma clara no decurso do seu mandato, optou por dizer ao líder da Bancada Parlamentar do PCP que ele tinha saudades era do tempo da Reforma Agrária.
Ali ao lado, na Comissão de Inquérito ao caso BPN, a maioria socialista parecia executar uma espécie de pega invertida, fugindo a grande velocidade do touro enfurecido que seria um “relatório final” isento e rigoroso.
Como se tal não bastasse, aquele que devia estar permanentemente à frente do grupo de forcados a quem cabe a supervisão do sistema financeiro nacional, optou pelo conforto do camarote, enquanto um animal descontrolado visava clientes incautos e os recursos dos contribuintes.
Mais, ainda se deu ao luxo de alijar continuamente as suas responsabilidades e vir a público tecer comentários sobre a dita Comissão de Inquérito que reuniam a riqueza vocabular dos comentários de Gabriel Alves – “vê-se aqui a falta de qualidade técnico-táctica dos Senhores Deputados da Oposição” – com a pureza impulsiva do saudoso Jorge Perestrelo – “Boa, PS! Ripa na Rapakeka!!!”
E nós, portugueses, a ver e a dizer: OLÉ?

sábado, 4 de Julho de 2009

10 anos depois


O desafio foi lançado ao anterior Director do Diário do Minho (DM), Pe. João Aguiar Campos e mereceu deste a pronta mas talvez desconfiada adesão: por que não incluir um Suplemento Económico nos novos conteúdos que o DM estava a adicionar semanalmente às suas edições?
O primeiro número viria a ser publicado a 16 de Novembro de 1999, creio que com as mesmas oito páginas de hoje, e já com diversas colaborações pessoais e institucionais, muitas das quais se prolongaram até aos nossos dias.
Graças a todas elas, dos mais reputados consultores, académicos e gestores, de instituições financeiras, associações empresariais ou organismos públicos, o nosso Suplemento conseguiu reunir conteúdos ricos e diversificados, de que temos recebido um excelente eco dos leitores, e pode bem pedir meças a muitas publicações de âmbito nacional.
Se as já longínquas primeiras edições contavam com vários conteúdos que me cabia preparar, o Suplemento de hoje, que continua a receber inúmeras propostas de novas e diferenciadas colaborações, já resiste, na pior das hipóteses, com a pressão do Damião Pereira sobre os “retardatários” e dispensa a participação do seu criador.
Mas, voltando a essa primeira edição e, no caminho, passando pelas várias centenas que se seguiram nesta década, é no mínimo curioso rever os factos que marcaram a actualidade económica da região, do País e do mundo.
No primeiro artigo, “Gracias, Señor Ministro”, evocava-se o contributo do então Ministro da Economia e Finanças do Governo de António Guterres, Pina Moura, no processo que conduziu à aquisição do Banco Totta e Açores e do Crédito Predial Português (então nas mãos de António Champalimaud) pelos espanhóis do Banco Santander Central Hispano.
Curiosamente, poucos anos depois, Pina Moura viria a assumir um superior protagonismo na defesa dos interesses falados em portunhol, ao estar directamente envolvido na aproximação da espanhola Iberdrola ao mercado eléctrico nacional.
Em 1999, Sócrates – o José – era “apenas” o Ministro do Ambiente desse Executivo Governamental, conseguindo maior visibilidade nos debates na RTP com o Primeiro Ministro que o iria anteceder, Pedro Santana Lopes, do que nas disputas sobre a co-incineração com colegas do Partido, com destaque para… Manuel Alegre.
Antes, já Durão Barroso vira o poder “cair-lhe no colo”, depois da “fuga” de Guterres, e antes do próprio deixar o cargo de Primeiro-Ministro para abraçar os desafios da Presidência da Comissão Europeia numa Europa em crescimento contínuo.
Da Europa, veio todo um Quadro Comunitário de Apoio e iniciou-se a implementação do QREN – Quadro de Referência Estratégica Nacional, sem os resultados no plano material e imaterial que dessem o devido seguimento ao verdadeiro salto do nosso crescimento e desenvolvimento que ocorrera durante o período “Cavaquista”.
O Euro chegou também até nós e, no plano financeiro, assistimos à progressiva internacionalização da Bolsa Portuguesa (hoje, NYSE Euronext), por entre os vários booms e crashs que marcaram a época do “capitalismo popular”.
Comigo, o Suplemento viajou por vários Continentes e aqui deu eco do clima económico e das vivências locais, ao mesmo tempo que assistia à distância aos revezes e paixões que proporciona o regresso aos Países de Língua Oficial Portuguesa, por entre a conquista da paz e da retoma económica que os mesmos atravessam.
Vimos como a economia mundial sobreviveu à emergência da ameaça terrorista global e como soçobrou aos excessos do sistema financeiro e à propagação das crises em mercados “globais”.
Por cá, falou-se da crise, do desemprego, da inflação, da subida e da descida dos juros, da subida e descida do petróleo, do investimento directo estrangeiro, da consolidação das contas e do combate ao défice, das múltiplas reformas estruturais prometidas, adiadas ou simuladas.
Sem preocupação de manter um excessivo rigor científico e procurando ir ao encontro dos interesses e dos perfis dos vários tipos de leitores, não hesitei em socorrer-me do humor ou da sátira, de peças com mais de recurso de estilo e de verdadeiros manifestos de intervenção cívica para abordar as mais diversas matérias que contendem com a esfera económica.
Num Norte cada vez mais pobre face ao todo nacional, num Minho cada vez menos valorizado pelos seus próprios protagonistas, jamais descurei a atenção sobre a Braga de todos nós.
A 11 de Dezembro de 2001, no antepenúltimo dos 100 artigos que viria a incluir na primeira colectânea que publiquei, então com prefácio do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, escrevia: “Acresce à estrutura económica já existente um conjunto de factores positivos que podem fortalecer as vantagens competitivas do concelho e contribuir para a sua afirmação mais veemente no futuro próximo: a riqueza do seu património etnográfico, cultural e natural; o dinamismo empresarial existente, quer a título individual, quer ao nível associativo; a existência de uma população jovem com um nível crescente de qualificações; o papel da Universidade do Minho e demais Instituições de Ensino Superior ou Profissional; o acesso a uma rede viária incompleta mas satisfatória; a proximidade geográfica e cultural com o resto do Norte de Portugal e com a Galiza.
Por todos estes motivos, Braga reúne características únicas para ver a sua economia sofrer um impulso decisivo ao longo dos próximos anos, assegurando o aumento dos níveis de emprego e da qualidade de vida da população.

Oito anos volvidos, Braga continua uma promessa adiada, num tempo em que é cada vez mais caro adiar o futuro.
Também por isso, a juntar ao período de férias dos Suplementos do DM, estarei ausente destas páginas até ao próximo dia 13 de Outubro.
Mas, prometo, voltarei com a capacidade para reescrever o passado e reconstruir o nosso futuro, para assim entrar da melhor forma na nova década do Suplemento de Economia. Até lá!

quarta-feira, 24 de Junho de 2009

O Manifesto dos 28

A situação já era de estranhar. Depois de em períodos anteriores de alguma turbulência económica se terem multiplicado os Manifestos, Movimentos e Convenções da Sociedade Civil, o que estaria a reter essa mesma “Sociedade” de tomar posição na actual conjuntura?
Estariam os mais reputados economistas, empresários e demais personalidades fazedoras de opinião a perscrutar a realidade para elaborar um diagnóstico mais racional da actual situação e para antever a sua mais provável evolução futura?
Estariam já a estudar as melhores soluções para contornar os actuais problemas e para avançarem com medidas concretas de dinamização da actividade económica?
Pois bem, se é que existia alguma expectativa em torno desta matéria, o “Manifesto dos 28” que foi tornado público no decurso do passado fim-de-semana, acaba por ser algo decepcionante.
Por um lado, por força do leque de subscritores envolvidos. Entre os 28, encontram-se de facto economistas de todos os quadrantes políticos, de reputação e prestígio inatacáveis, cuja agregação numa determinada tomada de posição pública não pode ser desvalorizada e deveria ter repercussões efectivas sobre as linhas de orientação das políticas de quem quer que esteja a exercer funções Governativas.
Assim sendo, uma tomada de posição desta natureza justificar-se-ia quando a mesma pudesse ter um impacto efectivo na reorientação dessa linha de condução das políticas e não num momento em que, como defendi em anterior artigo, por força da actual perda de legitimidade “política” o Governo se deveria abster de tomar decisões que possam condicionar decisivamente as gerações vindouras e a acção dos próximos Executivos.
Perante tal pressuposto, o “Manifesto dos 28” parece surgir desenquadrado no tempo, dando óbvia credibilidade pública a uma determinada opinião sobre as matérias abordadas, mas perdendo o seu efeito prático entre as irredutibilidades do actual Governo e as tentativas de mitigação, hoje evidentes, do seu sentido de perda do anterior capital eleitoral.
Numa outra perspectiva, o “Manifesto dos 28” também chega tarde, uma vez que centra as suas conclusões na necessidade de reavaliação pelo Governo dos grandes investimentos públicos e no apelo para que faça um travão imediato nos projectos de transportes.
Na base destas conclusões está a ideia que “os desequilíbrios estruturais que atingem a economia portuguesa, que têm vindo a piorar na última década e que se agravaram com a crise mundial, não são compatíveis com a insistência em investimentos públicos de baixa ou nula rentabilidade, e com fraca criação de emprego em Portugal".
Ora, em verdade, não foi esta a linha de discurso utilizada pela actual Direcção do PSD desde os primeiros dias do seu mandato?
Não foi esta posição menorizada, ignorada, ridicularizada e duramente criticada pelos mais diversos quadrantes durante meses a fio em que se tornava evidente que o País não podia desperdiçar recursos com investimentos de rentabilidade duvidosa? Especialmente em circunstâncias como aquelas que hoje marcam o cenário económico e social, em que o grosso dos meios financeiros tem que ser orientado para medidas que criem emprego e prestem apoio aos mais carenciados?
Não era isto, então, cultivar a inacção? Não era sinónimo do desperdício dos apoios comunitários para estes projectos? Não era uma incoerência face às posições assumidas pelos anteriores Governos do PSD e pela Própria Dra. Manuela Ferreira Leite? Mas as políticas devem manter-se imutáveis às transformações da realidade do País?
No “Manifesto dos 28”, diz-se, agora, o óbvio: é preciso parar, pensar e reequacionar estes projectos. E, para isso, claro está, é preciso fazer estudos.
Ora, só a demagogia barata de Francisco Louça é que pode tentar achincalhar esta posição com o envolvimento de alguns dos subscritores nos estudos anteriormente realizados e nas posições assumidas por este e anteriores Governos sobre a matéria.
Não sabe este prestigiado economista que os estudos são feitos com pressupostos e cenários que não são imutáveis?
Estará apenas a defender que quem realize actividades de consultoria para o Estado deve trabalhar gratuitamente?
Estará ele próprio disponível para efectuar os estudos que agora se revelam necessários, a título pro-bono?
Em suma, o “Manifesto dos 28”, pode ter menos impacto do que a junção destas personalidades deveria justificar, chega tarde e diz o óbvio.
Mas, ao dizer o óbvio, fala verdade. E isso basta.

quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Milhões sobre a relva

Passaram meses a fio em que os Portugueses e os demais cidadãos mundiais foram esmagados pelas notícias da crise, das falências de empresas, do crescimento exponencial do número de desempregados, dos sucessivos planos de incentivo dos Governos e das Instâncias Internacionais.
Quase sem excepção, os diversos sectores de actividade foram mostrando os sinais de enfraquecimento, expondo a necessidade de reduzir a capacidade de produção instalada e de acomodar os efeitos da visível redução dos níveis de procura.
Retraíram-se os investimentos. Avançaram os sinais de pressões descendentes sobre os níveis de preços. Caíram, como sempre caem nestas circunstâncias, por mais paradoxal que tal possa parecer, os níveis de investimento publicitário e a aposta na formação.
Fecharam portas instituições financeiras de todo o tipo. Grandes colossos económicos que sempre serviram como referencial para a economia capitalista tiveram que soçobrar ao impacto da conjuntura económica.
Por maior que fosse a concertação de esforços entre todas as partes envolvidas, parecia não haver forma de inverter a tendência de queda e os cenários negros que pareciam perfilar-se nos horizontes das diversas economias ocidentais.
Subitamente, porém, ei-lo que surge novamente na linha da frente da gestão da sua “empresa” de eleição. Como que vindo de outra galáxia, alheia a todos estes males e à aparente falta de remédios, Perez voltou a assumir o papel de Deus e a construir a sua própria constelação de estrelas.
Primeira Kaká. Depois Ronaldo. A seguir?
Os milhões parecem cair como uma aposta premiada numa máquina de casino, provocando um ruído ensurdecedor que ora provoca ondas de entusiasmo, ora evidentes sinais de inveja, ora ponderadas dúvidas sobre o rumo encetado.
60 milhões. 94 milhões. Muitos mais, diz, tem ainda para gastar para voltar a disputar a Liga e as demais competições domésticas e internacionais. O futebol rendilhado de Messi e seus pares que tantos frutos deu ao Barca de 2008/2009 provocou uma azia difícil de ultrapassar lá para os lados da capital espanhola.
Não faz sentido, dizem uns. É demais, apressam-se a corrigir outros. É uma loucura, sugerem mesmo alguns.
Aqui, como em qualquer outro negócio, pode por vezes confundir-se a razão e o coração.
Serão estes jogadores um bom investimento numa óptica estritamente económica e financeira?
A resposta pode até não ter nenhuma raiz na antecipação da performance desportiva dos “blancos” na época que se avizinha.
São os milhões do merchandising. São mais milhões da sponsorização. São ainda mais milhões da renegociação dos contratos televisivos, dos direitos de imagem e da venda de lugares e bilhetes para os jogos. Serão seguramente, os cachets ultra-milionários das digressões de pré-época pela Ásia ou pelos países dos petro-dólares.
Poderá haver, também, esse bónus: a vitória nas diversas competições desportivas e os prémios monetários muito significativos que hoje lhes estão associados. E, daí, mais merchandising, mais patrocínios, mais direitos de imagem, mais transmissões, mais bilhetes, mais contratos.
O ciclo, ora virtuoso, ora pernicioso, parece incontornável.
Aqui e ali, pergunta-se como é possível. Mais além, defende-se a imposição de balizas administrativas que possam assegurar um maior nivelamento da concorrência. Será necessário? Será útil?
A verdade é que o circo está montado e o espectáculo tem que continuar. E, agora, o dinheiro tem que rolar e cumprir a sua função.
Em Manchester, correm-se os catálogos para escolher com grande conforto os substitutos que se deseja para a antiga estrela da companhia.
Em Milão, até já dá para pagar 15 milhões de Euros por um jogador que o Porto comprara há poucos meses por uma quantia 23 vezes inferior ao “falido” Vitória de Setúbal.
Olho para o negócio de uns? Ou descontrolo financeiro de outros?
Crise? Mas ainda alguém fala em crise?