segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

É a recessão, estúpido!

Passaram apenas dois meses. A propósito da apresentação pelo Governo do Orçamento de Estado para 2009 questionei neste mesmo espaço: “(…)que clareza, rigor, credibilidade e transparência tem um Orçamento de Estado cujas referências do quadro macroeconómico previsto são rebatidas de forma expressiva por todas as organizações internacionais antes mesmo de ele começar a ser discutido no Parlamento?(…)
Desde então até ao início do presente mês de Janeiro, o Governo e, em particular, o Ministro das Finanças e o Primeiro-Ministro fizeram “orelhas moucas” a todos os reparos provenientes dos diferentes quadrantes políticos, às críticas de analistas independentes, às contradições crescentes que resultavam da divulgação de novas projecções pelas diferentes entidades.
Por entre a cultura desse “estado de negação” e a preservação de um cenário ilusório (que continuava a enquadrar o principal documento de gestão do País), alguns Portugueses, necessariamente mais optimistas, questionavam qual seria o segredo, o truque, o artifício com que o Governo socialista acabaria por contornar a tempestade resultante da crise internacional e dos erros acumulados ao longo de boa parte dos últimos 13 anos.
Para alguns, a esperança chegou com os anúncios dos múltiplos pacotes anti-crise, desde os milhões de investimento anunciados pelo agora empossado Presidente Americano, aos estímulos recebidos da Comissão Europeia, às medidas de política expansionista do próprio Governo nacional.
Todavia, na sua última prestação televisiva, José Sócrates quebrava o tabu e pronunciava pela primeira vez a palavra proibida: “Recessão!”.
O País não chegou a estremecer, fosse pelos múltiplos alertas antes formulados, fosse pelas garantias novamente reiteradas pelo Primeiro-Ministro de que o Governo esticaria a sua mão protectora para acudir aos mais visados pela derrapada do crescimento e pelo aumento do desemprego.
Logo no dia seguinte, porém, a apresentação das projecções do Banco de Portugal deram uma noção mais clara da negritude do cenário económico que se avizinha e do disparate da teimosia acumulada pelos correligionários socialistas do Governador.
José Sócrates e Teixeira dos Santos emendaram finalmente a mão e o Governo aprovou um Orçamento Suplementar no Conselho de Ministros Extraordinário que teve lugar no passado dia 16 de Janeiro.
Desta feita, prevê-se uma diminuição do Produto na ordem dos 0,8% do PIB, uma subida do Desemprego para os 8,5%, um Défice Público de 3,9% em 2009 e um aumento da Dívida Pública para os 69,7% do PIB.
Estavam os governantes portugueses a recuperar o fôlego depois das justificações apresentadas às agências de rating internacional pela derrapagem das contas públicas e eis que surgem as previsões da EIU – Economist Intelligence Unit, um Grupo de Especialistas ligado a esta conceituada revista económica internacional.
Segundo os dados revelados, a EIU projecta uma diminuição do PIB Português na ordem dos 2,0% em 2009 e uma subida do défice orçamental para os 4,5% no presente ano. Ainda segundo a EIU, o défice subirá novamente para os 4,8% em 2010 e o País permanecerá em recessão, ainda que de apenas -0,1% do PIB.
Pela primeira vez, estes especialistas apontam mesmo para a ocorrência de deflação no ano em curso, com uma descida do nível geral de preços que poderá atingir os 0,3%.
Já ontem, foi a vez da Comissão Europeia apresentar novo cenário negativo, mais uma vez em clara divergência com as projecções corrigidas do Governo.
Tal como se pode ler nas Previsões Intercalares para a União Europeia 2009-2010, Portugal deverá registar uma quebra do produto de 1,6% em 2009 e de 0,2% em 2010; o desemprego deve subir até aos 8,8% em 2009 e 9,1% em 2010; o défice será de 4,6% do PIB no presente ano.
Isto é, como aconteceu há dois meses atrás, o Governo volta a submeter ao Parlamento um Orçamento totalmente desacreditado e irrealista. E ainda não chegamos ao fim de Janeiro!
Neste(s) cenário(s), poderá lamentar-se ainda mais as dificuldades económicas com que se depara a histórica fábrica Bordalo Pinheiro das Caldas da Rainha. É que, não tarda nada, será preciso um dos seus produtos mais emblemáticos para pôr em cada janela…

1 comentário:

Tomás Sousa disse...

Como sempre Ricardo Rio dirige-se com a sua prosa frontal, directa e sobretudo verdadeira.
Nestes tempos que correm em que a mentira do Pinóquio tenta com todos os meios ocultar a verdade. O Pinóquio é como o ex-Presidente de um clube de futebol, também conhecido por Vale Tudo, e que ficou, e continua famoso por mentir descaradamente.
Ricardo Rio não tem pejo em falar verdade.
Ricardo Rio põe os nomes aos bois, e diz tudo aquilo que todos conversam à boca-pequena, mas só os corajosos afirmam publicamente. Pois toda a cautela é pouca, não vá chegar aos ouvidos do Pinóquio, e este mandar calar-nos, impondo a "verdade oficial" que não passa de uma mentira descarada.